25 março, 2008

ASSIS, JOYCE, reprodutores e construtores de conhecimento

Existem muitas formulas criadas para que o conhecimento que foi desenvolvido universalmente possa ser transmitido de geração à geração. Podemos ver isso manifestado principalmente nos métodos existentes para o aprendizado de uma língua estrangeira, o que se expressa no gigantesco número de escola de idioma, principalmente o inglês, que se precipitam pelo Brasil. Cada escola de idioma opta por utilizar um método diferente que, em geral, é o que faz a fama da escola, sendo ela procurada justamente por causa do método específico.

Dentro do ambiente acadêmico, em cada universidade especificamente, podemos dizer que existe uma forma diferente de ensinar, que se manifesta de uma forma similar com o que acontece com as escolas de idioma. Começando pelo conteúdo escolhido e terminando pela forma da cobrança que caí sobre o alunado, as universidades, tanto as públicas quanto as particulares – tirando as condições que dão prestígio particular a cada universidade (contanto o número de artigos publicados, professores de renome nacional e internacional e, até mesmo, o preço e a localidade) – tem métodos diferentes de incentivar o processo de aquisição de conhecimento em seus alunos. Tão diferente que as vezes o que é considerado conhecimento em uma instituição superior pode não ser considerado em outra universidade.

Essa diferença metodológica é o que possibilita uma formação diversificada em nossa sociedade, fazendo surgir dessa forma uma multiplicidade de pessoas que defendem os mais variados conhecimentos. Dentro dessa variado hall de conhecimentos podemos visializar, de uma forma bem grotesca, a formação de dois grupos gerais nas pontas desse hall. Um grupo de pessoas que apenas discursam sobre esses conhecimentos, não permitindo réplicas ou qualquer outra manifestação da parte daqueles que escutam(falsos conhecedores); e um outro grupo, de pessoas que se preocupam em arquitetar melhor as idéias que tem em mãos, essas são como artesãos, conhecem todas as passagens do que estão falando e podem conversar sobre isso sem problemas, expondo as limitações do próprio conhecimento que debatem(verdadeiros problematizadores).

Tendo esses dois grupos em mente, o grupo da pessoa que vomita conhecimentos e o agrupamento da pessoa que trabalha com eles, desejo mostrar duas passagens que explicitam a formação desses dois tipos de seres. A primeira passagem ilustra o mero reprodutor, aquele que não se permite a ter opiniões próprias e se contenta em reproduzir por reproduzir apenas para atingir seus objetivos políticos e sociais. A segunda passagem trabalha pelo lado oposto dessa primeira proposta. Tenta trazer à luz a importância de um aprendizado consistente e aprofundado, que não se contenta com formulas científicas prontas ou frases de efeito, um conhecimento que perpassa sua própria condição da existência, se questionando e se desenvolvendo constantemente, nunca se dando por acabado.

A primeira passagem foi escrita por MACHADO DE ASSIS em 1881 para o jornal gazeta de notícias e se chama TEORIA DO MEDALHÃO. A história começa com um pai conversando com o filho após o jantar de aniversário deste, que completa 21 anos, falando que na vida uns são conhecidos (e reconhecidos) e outros são anônimos, estes últimos sendo a maioria. E o pai fala que vai ensinar ao filho uma profissão para recompensar o esforço durante a vida, caso as outras profissões falhem.

A segunda passagem foi escrita por um irlandês, JAMES JOYCE publica em 1916 o romance intitulado O RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM. Em uma obra com retoques visivelmente autobiográficos, JOYCE desenvolve suas impressões sobre sua própria infância, adolescência e juventude, onde ficam marcadas a fraca figura do pai, a rígida paixão religiosa da mãe, o rigor da educação jesuísta, a linda e explorada pátria irlandesa, com a ocupação do estrangeiro e a mistura entre o mundo político e religioso e a alma irlandesa em sua plenitude, com um ideal patriótico encarnado por líderes irlandeses.

Bom, aproveitem a leitura. Com vocês:

TEORIA DO MEDALHÃO – MACHADO DE ASSIS

—Estás com sono?

— Não, senhor.

— Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?

— Onze.

— Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...

— Papai...

-Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na in­dústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt[1] e Na­poleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notá­vel, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.

— Sim, senhor.

— Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. E isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

— Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

— Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou ema­nação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos...

— É verdade, por que quarenta e cinco anos?

— Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data nor­mal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os qua­renta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.

— Entendo.

— Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absoluta­mente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violên­cia, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constan­te esforço conviria ao exercício da vida.

— Mas quem lhe diz que eu...

— Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conve­niente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipa­tias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemen­te o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente deli­cado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

— Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.

— Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retó­rica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist[2] são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.

— Como assim, se também é um exercício corporal?

— Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te acon­selho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormemente nas de recreio e parada é utilíssimo, com a condição de não andares de­sacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embo­ra no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

— Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?

— Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qual­quer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escân­caras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Maza­de.[3] 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses —suponhamos dois anos, — reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...

— Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...

— Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exem­plo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Icaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant, consules[4] é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum[5]. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício; seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções con­vencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e públi­ca. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as rela­ciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma ques­tão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso arranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! — E esta frase sin­tética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.

— Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.

— Entendemo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação, O mesmo direi de to­da a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do meda­lhão seja uma certa atitude de deus Término[6], e as ciências sejam obra do movimento huma­no, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: — ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas: no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os pró­prios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas, e é radicalmente falso. Acresce, que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira — esperta e afre­guesada, — que, segundo um poeta clássico,

Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,

Menos monte alardeia de retalhos;

e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.

— Upa! que a profissão é difícil.

— E ainda não chegamos ao cabo.

— Vamos a ele.

— Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureíra e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coi­sas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante ações heróicas ou custosas é um sestro pró­prio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado Científico da Criação dos Carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares mereci­mentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou co­reográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lu­me, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?

— Percebi.

— Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos ami­gos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar poli­dez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o ex­pusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabe­leireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a “ala­vanca do progresso" e o “suor do trabalho”, vencem as “fauces hiantes” da miséria. No caso de que uma comissão te leve à casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um dis­curso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás en­tão os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representa­ção. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo, a noticia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.

— Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.

— Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessida­de de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relató­rios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.

—E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da vida?

— Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.

— Nem política?

— Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe so­mente a utilidade do scibboleth[7] bíblico.

— Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?

— Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: — ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; — é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo Ministro da Guer­ra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos huma­nos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.

— Farei o que puder. Nenhuma imaginação?

— Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.

— Nenhuma filosofia?

— Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da histó­ria”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

— Também ao riso?

— Como ao riso?

— Ficar sério, muito sério...

— Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente, — e este ponto é melindroso...

— Diga.

— Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano[8], transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?

— Meia-noite.

— Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as propor­ções, a conversa desta noite vale O Príncipe[9] de Machiavelli. Vamos dormir.

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM – JAMES JOYCE

Abriu a porta do anfiteatro e ficou parado na luz friorenta, uma luz cinzenta que lutava por entrar através das janelas empoeiradas. Uma figura estava agachada diante da grande fornalha, e por sua magreza e ar grisalho percebeu logo que era o deão dos estudos que estava a acender o fogo. Stephen fechou a porta sem ruído e se aproximou do fogão.

- Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo?

O padre imediatamente olhou para cima e disse:

- Um momento só, senhor Dedalus, e vai ver. Isso de acender o fogo constitui uma arte. Temos as artes liberais e temos as artes úteis. Essa é uma das artes úteis.

- Vou experimentar aprendê-la – disse Stephen.

- Não pôr muito carvão – disse o deão, trabalhando ativamente na sua tarefa – é um dos segredos.

Tirou dos bolsos laterais da sotaina quatro mechas de vela e as colocou jeitosamente entre os carvões e jornais torcidos. Stephen observava-o calado. Ajoelhado assim sobre os pedaços de jornais e os pavios de ela, parecia, mais do que nunca, um humilde servidor preparando o lugar do sacrifício num templo vazio. Uma levita do Senhor. Como a veste de linho liso dum levita, a batina puída e descorada vestia aquela figura ajoelhada de alguém que os hábitos canônicos ou os paramentos bordados deviam irritar e perturbar. Todo o seu corpo envelhecera no serviço inferior do senhor – em vigiar o fogo sobre o altar, em dar testemunha de boas-novas, secretamente, em confiar nas pessoas mundanas, em bater apressadamente quando ordenado –, e, no entanto, tinha permanecido sem graça por insignificância de santidade ou de beleza prelatícia. Não só, até mesmo a sua alma se tornara velha naquele serviço, sem ter crescido para a luz e para a beleza e sem ter expandido para fora de si um doce odor de santidade – uma vontade mortificada, não correspondendo mais à emoção da sua obediência do que à emoção do amor ou ao combate do seu corpo envelhecido, poupada e robusta, algo grisalha com uma penugem discretamente prateada. O deão permanecia sobre os calcanhares e vigiava as fagulhas pegarem. Stephen, para encher o silêncio, disse:

- Tenho certeza de que não saberia acender um fogo.

- O senhor é um artista, não é mesmo, senhor Dedalus – disse o deão, olhando de esguelha para cima e piscando os seus olhos pálidos. – O objetivo dum artista é criar a beleza. Já o que seja a beleza é outra questão.

E friccionou as mãos vagarosamente, secamente, sobre a dificuldade.

- É capaz, agora, de resolver essa questão? – perguntou.

- São Tomás – respondeu Stephen – diz “pulcra sunt quae visa placent”.

- Este fogo aqui, na nossa frente – disse o deão – deve ser agravável à vista. Consequentemente, será ele bonito?

- Tanto quanto ele seja apreendido pela visão, a qual suponho signifique aqui intelecção estética, deve ser bonito. Mas são Tomás diz também: “Bonum est in quod tendit appetitus”. Até onde ele satisfaça o desejo animal para o calor, o fogo é bom. No inferno, todavia, ele é um mal.

- Perfeitamente – disse o deão –, o senhor acertou na cabeça do cravo.

Ergueu-se com desenvoltura, dirigiu-se para a porta, deixou-a entreaberta e disse:

- A corrente de ar, garantem alguns, ajuda bem em tais casos.

E como voltasse para o fogão, coxeando ao de leve mas com um passo lépido, Stephen viu a alma silenciosa dum jesuíta fitá-lo através daqueles olhos claros e sem amor. Como Inácio, ele era coxo, mas nos seus olhos não brilhava centelha alguma do entusiasmo de Inácio. Mesmo a lendária força da Companhia, um força mais sutil e mais secreta do que os seus fabulosos livros de sabedoria secreta e sutil, não havia inflamado a sua alma com a energia do apostolado. Era como se ele usasse os artifícios, conhecimentos e espertezas do mundo, com licença de o fazer para a maior glória de Deus, sem alegria no seu manejo e sem aversão por aquilo que neles era mal, mas com um firme gesto de paciência os fazendo retroceder sobre si mesmos, e por todo esse silencioso trabalho que não amava absolutamente o mestre e pouco, se é que os amava, a que servia. Similiter atque senis baculus era ele, como o fundador consideraria, como um cajado na mão dum velho para apoiar-se na estrada ao cair da noite ou no mau tempo, para ficar ao lado do ramalhete duma dama no banco dum jardim, para ser erguido em ameaça.

O deão voltou ao fogão e começou a afagar o queixo.

- Para quando podemos esperar alguma coisa sua, sobre a questão estética? – perguntou ele.

- De mim? – disse Stephen espantado. – Levo mais de quinze dias, às vezes, e isso mesmo se tenho sorte, embaraçado numa idéia.

- Essas questões são muito profundas, senhor Dedalus – disse o deão. – É a mesma coisa que olhar dos alcantis do Moher para as profundezas. Muitos caem no abismo e jamais voltam a cima. Só o mergulhador destro pode descer a tais profundidades, explorá-las e volta à superfície.

- O senhor está se referindo à especulação? – perguntou Stephen. – Eu também estou convencido de que não existe tal coisa, o pensamento livre, pois que todo o pensar deve estar sujeito às suas próprias leis.

- Ah!

- Estou com a intenção de continuar trabalhando presentemente à luz duma ou de das idéias de Aristóteles e de são Tomás.

- Compreendo. Estou compreendendo perfeitamente o seu ponto.

- Apenas preciso delas para o meu uso e guia até que tenha feito alguma coisa por mim mesmo, mas à luz delas. Se a lâmpada deita fumaça ou começa a cheirar, tentarei enchê-la. Se não der luz bastante, eu a venderei e comprarei uma outra.

- Também Epicteto tinha uma lâmpada – disse o deão –, que foi vendida por um preço irrisório depois da sua morte. Foi a lâmpada com a qual escreveu suas dissertações filosóficas.

- Também Epicteto tinha uma lâmpada – disse o deão –, que foi vendida por um preço irrisório depois de sua morte. Foi a lâmpada com a qual escreveu suas dissertações filosóficas. O senhor conhece Epicteto?

- Um antigo cavalheiro – respondeu Stephen – que disse que a alma se parecia muitíssimo com um balde cheio de água.

- Diz-nos ele com a sua maneira singela – continuo o deão – que tinha posto uma lâmpada de ferro diante da estátua dum dos deuses e que um ladrão roubou a lâmpada. Que fez o filósofo? Refletiu que estava no caráter dum gatuno roubar, e então resolveu comprar uma lâmpada de barro no dia seguinte, em vez duma de ferro.

Um cheiro de sebo derretido desprendeu-se dos pavios da velo do deão, e se fundiu na consciência de Stephen com o tinido daquelas palavras: “balde” e “lâmpada”, “lâmpada” e “balde”. A voz do padre, também, tinha um rude timbre. O espírito de Stephen ficou parado, por um instante, retido pelo timbre estranho e pela analogia, assim como pela cara do padre, que parecia uma lâmpada apagada ou um refletor pendendo um falso foco. Que havia atrás dela, ou dentro dela? Um brutal torpor de altar ou a opacidade de nuvem trovejante, carregada de intelecção e capaz da escuridão de Deus?

- Referia-me a uma outra espécie de lâmpada, senhor – disse Stephen.

- Indubitavelmente – disse o deão.

- Uma dificuldade – disse Stephen –, na discussão estética, é saber se as palavras estão sendo empregadas de acordo com a tradição literária ou de acordo com a tradição do mercado do dia. Lembro-me duma das sentenças de Newman, na qual diz da Virgem Maria que ela foi detida na total companhia dos santos. O uso da palavra no mercado do dia é inteiramente diferente. “Espero não estar detendo o senhor.”

- De modo algum – disse o deão, polidamente.

- Não, não – disse Stephen, sorrindo. – Refiro-me ...

- Ah! Sim, sim. Compreendo – disse o deão logo. – Apanhei a questão no seu todo: “deter”.

Deu um jeito para a frente com o maxilar inferior e articulou uma tosse seca e curta.

- Voltando à lâmpada – disse ele –, a alimentação dela é também um lindo problema. Deve-se escolher um óleo puro, e deve-se ter cuidado, ao entorná-lo, para que não derrame por fora, não entornando mais do que um funil pode conter.

- Qual funil? – perguntou Stephen.

- O funil através do qual o senhor derrama o óleo dentro da lâmpada.

- Ah! Isso se chama “funil”? – perguntou Stephen. – Não é “gargalo”?

- “Gargalo”? Que é isso?

- Isso?É... o funil.

- Na Irlanda chama-se a isso de “gargalo”? – perguntou o deão. – Nunca ouvi essa palavra com tal significação, n minha vida.

- Dão-lhe tal significação no baixo Drumcondra – disse Stephen, rindo –, onde falam o melhor inglês.

- “Gargalo” – disse o deão, refletindo. – é uma aplicação interessantíssima.

Hei de voltar a pensar nessa palavra. Palavra de honra que hei e pensar nela.

A sua cortesia de maneiras soava um pouco falsa, e Stephen encarou aquele inglês convertido com os mesmos olhos com que o irmão mais velho da parábola se deve ter voltado para o filho pródigo. Um simples continuador no despertar de clamorosas conversões, um pobre inglês na Irlanda, parecia haver penetrado no palco da história jesuistíca quando essa estranha peça de intriga, inveja, pertinácia, luta e indignidade, tendo dado tudo, acabou redundando pela entrada do último comparsa atrasado num espírito moroso. Donde teria vindo? Talvez tivesse nascido e tivesse sido educado entre sérios dissidentes, vendo apenas a salvação em Jesus e detestanto as vãs pompas do estabelecimento. Teria ele sentido necessidade duma fé implícita no meio do rebuliço do sectarismo e da dialética dos seus turbulentos cismas, entre homens de mais de seis doutrinas, nessa variedade confusa e ondulante de seitas e mais seitas? Teria ele encontrado assim de repente a verdadeira igreja como um fiapo de algodão cujos pontos se enrolam no ar ou um tenuíssimo fio de raciocínio, sobre a insuflação, a imposição das mãos ou a procissão do Espírito Santo? Ou lhe teria o Senhor Cristo tocado e convidado a segui-l´O, como aquele discípulo que estava sentado à porta dalguma capela de teto de zinco, bocejando e tratando dos dízimos da igreja?

O deão tornou a repetir a palavra:

- “Gargalo”. Já agora isso é interessante!

- A pergunta que o senhor me fez há pouco parece-me bem mais interessante. Que beleza é essa que o artista luta por exprimir nas lâmpadas de terracota? – disse Stephen friamente.

A pequena palavra parecia haver voltado a ponta de florete de sua sensibilidade contra esse cortês e vigilante antagonista. Sentiu como que um laivo de melancolia que esse homem com quem estava falando fosse um compatriota de Bem Jonson. Pensou:

“A linguagem que estamos falando é dele antes de ser minha. Quão diferentes são as palavras “lar”, “Cristo”, “cerveja”, “mestre” nos seus lábios e nos meus! Não posso escrever nem pronunciar tais palavras sem perturbação de espírito. A sua linguagem, tão familiar e tão estrangeira, será sempre para mim uma língua adquirida. Nem fiz nem aceitei as suas palavras. Minha voz segura-as entre talas. A minha alma gasta-se na sombra de sua linguagem”.

- E há que distinguir entre o belo e o sublime – acrescentou o deão –, distinguir entre beleza moral e a beleza material. E investigar que espécie de beleza é peculiar a cada uma das várias artes. Ora, aí estão alguns pontos que devemos estabelecer.

Stephen, desencorajado, inesperadamente, pelo tom seco e firme do deão, ficou calado; e através do silêncio um ruído distante de calçados e de vozes confusas veio vindo escadas acima.

- E no perseguir tais especulações – disse o deão conclusivamente –, está, no entanto, o perigo de perecer de inanição. Primeiro que tudo deve uma pessoa tomar a sua posição. Depois então, pouco a pouco, acabará vendo o seu caminho. Refiro-me em todos os sentidos, no modo de vida e no modo de pensar. Poderá ser difícil pedalar no começo. Tome, por exemplo, o senhor Moonan. Levou muito tempo até chegar em cima. Mas acabou chegando lá...



[1] William Pitt, o Jovem (1759-1806) : assumiu o cargo de primeiro-ministro britânico em 1783, com 24 anos.

[2] Whist : jogo de cartas de origem inglesa.

[3] Charles Mazade (1820-93) figura central na Revue de Deux Mondes, onde escreveu sua crônica política entre 1852 e 1858 e de 1863 até 1893. A Revue era então a revista de cultura geral mais influente e mais lida no mundo inteiro, e tinha um certo prestígio social. Ela aparece na engraçada conversa entre Sofia e d. fernanda, no capítulo 161 de Quincas Borba.

[4] Caveant, consules (latim) : cuidado, cônsules.

[5] Si vis pacem para bellum (latim) ; se queres a paz, prepara a guerra

[6] Término: na mitologia romana, deus dos limites e das fronteiras. Aqui, porém, parece que Machado usa o nome em estreita relação com a palavra terminologia.

[7] Esta história encontra-se em Juízes, 12: 5-6 : tendo derrotado os efraimitas, os galaaditas distinguiam entre os fugitivos os que eram efraimitas pelo modo como pronunciavam a palavra scibboleth (que significa "espiga" em hebraico), que os galaaditas pronuciavam "chibboleth, e os efraimitas, "siboboleth".

[8] Luciano de Samósata (c. 125-190 a. C.) sofista e satirista grego, conhecido por seus diálogos satíricos que exerceram forte influência em escritores posteriores; é um dos preferidos de Machado.

[9] O Príncipe : obra política do italiano Niccoló Machiavelli (1469-1527) em que são dados os conselhos aos governantes sobre a melhor forma de dirigir os negócios do Estado e manter-se no poder.

21 março, 2008


Como dois passaros dourados pousados no mesmo galho, intimamente amigos, o ego e o Eu habitam o mesmo corpo.
O primeiro ingere os frutos doces e azedos da arvore da vida; o segundo tudo ve em seu distanciamento.
- Mundaka Upanishad -
No distanciamento está a sabedoria da incerteza...na sabedoria da incerteza está a libertação do passado, do conhecido, que é a prisão dos velhos condicionamentos.
E na mera disponibilidade para o desconhecido, para o campo de todas as possibilidades, rendemo-nos à mente criativa que rege o universo.
A incerteza, por sua vez, é terreno fertil para a criatividade e para a liberdade. Incerteza significa entrar no desconhecido em todos os momentos de nossa existencia. O desconhecido é de todas as possibilidades, sempre frescas, sempre novas, sempre abertas para a criação de novas manifestações. Sem a incerteza e o desconhecido, a vida é apenas uma repetição viciada de memorias velhas. Voce cai vitima do passado e o seu torturador de hoje é o que sobrou de voce ontem...

20 março, 2008

O Acaso...

"Sabe-se agora que os objetos situados em lados opostos do universo parecem estar energeticamente unidos um ao outro. Com maior rapidez que a velocidade da luz, uma mudança que ocorra em um dos pares desses objetos é instantaneamente reproduzida no outro que compartilha essa energia informativa. Esse princípio da física quântica enuncia que no mundo quântico e vibratório do qual as células de nosso corpo são parte, não existem barreiras, o tempo é relativo, massa , energia e informação são a mesma coisa, objetos uma vez unidos retêm para sempre a memória energético-informativa dessa união, e a separação de qualquer natureza, seja no mundo humano ou físico, é mera ilusão."
Paul Pearsall


19 março, 2008

"A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: - o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão"


Nelson Rodrigues

Encontros e Despedidas


Mande notícias
Do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando...

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero...

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega prá ficar
Tem gente que vai
Prá nunca mais...

Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir...
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem
Da partida...

A hora do encontro
É também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...


Milton Nascimento / Fernando Brant

O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...


(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...


Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)


Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso


Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)


E talvez de meu repouso...


Mario Quintana

18 março, 2008

Justiça e injustiça individuais em um mundo de possibilidades

Ontem terminei de ler o livro FELIZ ANO VELHO (sobre o livro:http://pt.wikipedia.org/wiki/Feliz_Ano_Velho), do escritor MARCELO RUBENS PAIVA (sobre o autor:http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelo_Rubens_Paiva). É um livro impactante e muito bem escrito, em que o autor conta a própria trajetória de vida, na qual ele fratura a quinta vértebra da coluna, ao tentar pular para um rio deu uma alta pedra, e acaba por ficar tetraplégico.

O autor conta no livro como foi seu processo de readaptação a vida cotidiana, revelando os fantasmas que ficaram dos antigos hábitos e quais as novas perspectivas que ele deve enfrentar agora em que ele não caminha mais com as próprias pernas e dificilmente buscará os mesmos sonhos que um dia teve. Relembra o mundo acadêmico no qual vivia, cercado de novas aventuras e diversas experiências que fizeram com que ele se tornasse um jovem cheio de possibilidades e com um futuro vasto e amplo pela frente.

O livro é recheado de histórias engraçados e trágicas nas quais o autor vai pausadamente expressando suas idéias e conflitos internos que se manifestam principalmente a partir do momento em que acontece o acidente e o autor fica tetraplégico.

Um grande conflito interno vivido pelo autor é o próprio questionamento sobre o acidente. o autor se pergunta durante todo o livro porque ele foi escolhido para sofrer essa perda dos movimentos dos membros, fazendo com que o leitor também entre nessa lógica de questionamentos, se perguntando sobre o momento em que vive, porque lê aquele livro e porque vive a vida que vive.

FELIZ ANO VELHO é um grande motivador de reflexão. Mas esse estágio de reflexão só chegará se o leitor se permitir comprar a idéia do autor. A proposta é desenvolver a reflexão sobre nossos atos com a tentativa de chegar ao âmago de nossas ações.

Aí vai um trecho do livro, espero que esse trecho motive todos a ler a obra de MARCELO RUBENS PAIVA. Selecionei um trecho que faz parte das reflexões do autor um ano depois de seu acidente, momento em que ele vai se encontrando em seu novo papel social e começa a adquirir uma perspectiva diferente sobre a vida. Contextualizado as idéias de MARCELO RUBENS PAIVA logo depois do trecho coloco uma tira do Calvin, se perguntando sobre justiça e injustiça nesse mundo de pontos de vista e de acontecimentos voluntários e involuntários.



FELIZ ANO VELHO - MARCELO RUBENS PAIVA


Dia 14 faço um ano de acidente, e só agora realmente vou começar o tratamento de fisioterapia. Foram dez meses de vértebra em frangalhos, usando aquele colete de ferro, e mais um mês de espera pela vaga. Um ano em que tive um certeza: minha vida mudou pacas. Sou um outro Marcelo, não mais Paiva, e sim Rodas. Não mais violinista, e sim deficiente físico. Ganhei algumas cicatrizes pelo corpo, fiquei mais magro e agora uso barba. Não fumo mais Minister, agora passei pro Luis XVI. Meu futuro é uma quantidade infinita de incertezas. Não sei como vou estar fisicamente, não sei como irei ganhar a vida e não estou a fim de passar nenhuma lição. Não quero que as pessoas me encarem como um rapaz que apesar de tudo transmite muita força. Não sou modelo pra nada. Não sou herói, sou apenas vítima do destino, dentre milhões de destinos que nós não escolhemos. Aconteceu comigo. Injustamente, mas aconteceu. É foda, mas que jeito...



Muito tempo depois, soube que estivera mais morto do que vivo naquela UTI. Minha mãe conta que, logo após chegar de Campinas, perguntou pro médico o que ela poderia fazer, e ele disse:

- Nada, apenas reze.



Hoje em dia, me pergunto se preferiria estar morto. Não sei, nem quero saber. Só sei que, nas noites em que tenho insônia, lembro de um garoto normal que subiu numa pedra e gritou:

- Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.


Pulou com a pose do Tio Patinhas, bateu a cabeça no chão e foi aí que ouviu a melodia: BIIIIIIIIIIIIIIIN.

Estava debaixo d´água. Não mexia os braços nem as pernas. Via somente a água barrenta e ouvia: BIIIIIIIIIIIIIN.





17 março, 2008

Atitudes e consequencias


O trabalho acima trabalho foi realizado por Marcos Chaves e apresentado na Escola de Cinema Darcy Ribeiro (http://www.escoladarcyribeiro.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=home). "Chaves é um realizador de proposições artísticas que, através da apropriação ou da intervenção, deslocam significados correntes, banais, convencionais, dados como certos, a fim de gerar a aparição de novos sentidos, inesperados, não vistos, não perscrutados. Trata-se do olhar agudo que se descola do habitual, reflete e produz o novo na linguagem, tendo como motor um misto contundente de humor e ironia. A escolha por estes recursos de forma alguma é casual, e sim consistente e coerente, pois eles são portadores de um alto grau de potência desviante: o humor e a ironia são dispositivos que acertam o alvo pelo caminho menos óbvio." Diz Luisa Duarte em artigo para o sitio rizoma.net(Acesse o artigo: http://www.rizoma.net/interna.php?id=168&secao=colagem).

Contrariando Luisa Duarte, na minha opinião a arte de Chaves chega a beirar o moralismo. Com essa frase - Passarinho que come pedra sabe o cu que tem - o autor credita ao propositor da ação o ônus da causa da mesma. Parece que para Chaves está no próprio indivíduo a raiz das conseqüência das ações praticadas pelo ator social. Assim, o autor dessa arte credita ao praticante dos atos as admoestações que o mesmo pode sofrer.

Esse é um ponto de vista, e dentro dele penso eu que essa é uma forma simplista de observar a vida, que vem caracterizada por uma visão individualista e alienante, existente de forma latente no modo de vida capitalista que vivemos hoje. Onde cada um deve assumir suas ações diante do coletivo e arcar com as respostas que esse coletivo dará. Isso faz com que pensemos que a vida é individual, atomizada do resto da sociedade, e que não sofre influências constantes da mesma. Faz também com que achemos normal as diferentes punições para cada tipo de delito, padronizando as transgressões como crimes para a sociedade(pensando nessa enquanto "corpo") e que devem ser seguidos de punições para a preservação do todo. O cerne dessa crueldade de pensamento é acreditar que essas punições tem algum propósito além da restrita proposta de servir como exemplo aos que ainda não transgrediram as leis (ou alguém ainda acha que a prisões modernas [na atualidade] e as punições corporais [na antiguidade - presentes até hoje] servem para alguma reabilitação individual ou tentativa de reinserção na social).

Ao mesmo tempo em que a arte de Chaves porta esse caráter reducionista(como expus brevemente acima), ela também amplia os horizontes do questionamento individual(como explicitou Luisa Duarte). Encontramos assim um jogo de possíveis leituras, que podem nos levar a proposta do individualismo atomizado, como explicitei acima ou a idéia da libertação, do desvio como crescimento e não como redução, como disse a Luisa Duarte.

Minha idéia nessa postagem é apenas levantar a possibilidade de diferentes leituras para o mesmo objeto. Poderíamos entrar em uma grande e profunda discussão sobre a arte e o corpo simbólico que essa levanta. Mas aqui só procurarei levantar a bola, aquecer o debate e incentivar o questionamento sobre o que e como entramos em contato com as coisas que estão ao nosso redor. Para podermos questionar o que representa a mídia de massas e como o indivíduo interage com ela. Será que todos temos as mesmas conclusões sobre o que entramos em contato ?

Um belo exemplo disso é o filme Tropa de Elite. Sendo considerado fenômeno nacional essa película surpreendeu muita gente e principalmente levantou diversas discussões sobre as propostas da arte pela visão do autor. Eu pude acompanhar diversas opiniões sobre o filme e diretamente vi a entrevista que o próprio diretor do filme, José Padilha, concedeu a TV Cultura em 18/10/2007 (Acesse a entrevista: http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/busca.asp?txtBusca=jos%E9+padilha)

Além de acompanhar os debates sobre o filme, também pude assistir ao filme diversas vezes, aprofundando cada vez mais minha opinião sobre esse filme e as conseqüências dele ser produzido, divulgado e de ter se tornado fenômeno nacional.

Como não poderia ser diferente, aproximo o resultado da arte realizada por Marcos Chaves ao resultado do que foi produzido por José Padilha. Criminalização da pobreza, crítica simplista ao tráfico de drogas, violência gratuita, manual prático de tortura barata e exploração comercial do problema social. Isso poderia parecer uma dura crítica ao filme, mas também vejo boas coisas nesse filme produzido por José Padilha. Observo coisas boas porque além da película produzida por esse diretor também vejo nele a história de seu diretor, seus sonhos e sua personalidade (principalmente no programa roda viva). Relembro outro filme do mesmo diretor que não vi inteiro, mas assisti boa parte e ouvi muitos comentários a respeito, Ônibus 174. Com esse levantamento contextual reflito sobre as intenções e idéias desse diretor, chegando a conclusão que o aparecimento dessa película - Tropa de Elite - assim como o Ônibus 174 - assim como despertar o que eu já disse, criminalização da pobreza e coisa e tal, também surge como um grande motivador e proporcionador de debates sobre nossa condição social atual. Fazendo com que isso não seja esquecido ou escondido nas favelas ou atrás de conjuntos habitacionais como cohab´s ou cingapuras.
A Arte, assim como o filme (sendo uma manifestação da própria arte), suscita debates, levanta questões e trás para a cena o que se encontra atrás dos palcos. Nem sempre teremos a visão que o artista fez de sua obra. Mas podemos nos aproximar dessa visão(não que seja necessária essa aproximação) procurando conhecer um pouco mais sobre o seu autor. Assim como quando você assiste a um espetáculo (seja um futebol, uma peça, um evento ou a uma simples aula de colégio ou de universidade), o conhecimento de quem, como e porque são esses atores que apareceram no palco faz toda a diferença na hora de se fazer a leitura do que está sendo mostrado.
Para terminar finalizo com uma frase de Mario Quintana que pode vir a levar as pessoas a refletirem sobre o carater da arte e como deve ser nosso comportamente diante de seu entendimento. Aí vai:
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Não discuto com o destino o que pintar eu assino - Leminski-


14 março, 2008

13 março, 2008



Hoje vejo o quanto é importante ter tempo para amadurecer e para aprender a vivenciar a vida com toda a sua problemática existencial. Se viver é um ato simples, pois precisamos de muito, muito pouco mesmo para nos mantermos vivos (um pouco de alimento, ar para respirar, água limpa para matar a sede, um lugarzinho para morar, um trabalho para nos mantermos ativos e pessoas a quem amar e com quem compartilhar nossas descobertas), ninguém em sã consciência pode afirmar que viver seja facil.

A vida é feita de simplicidade, porém não é feita de facilidades. Mas é somente quando as reflexões começam espontaneamente a surgir e a assumir novos significados, que percebemos o quanto devemos valorizar a vida e suas imensas e inúmeras possibilidades de aprendizado e de transformação.

Cada ciclo é impregnado de reflexão e traz consigo a transformação, a transcendência, a transmutação, o renascimento. Em outras palavras, ao entrar e sair de cada ciclo é morrer e renascer a cada momento, a cada instante, em cada respiração, em cada movimento, em cada sonho e em cada pensamento...

Perceber a passagem de cada ciclo é incentivo para que possamos começar nosso projeto individual de transformação contínua, progressiva e ininterrupta sem receios, sem preguiça e sem rodeios. Não importa sua religião e nem suas crenças pessoais, pois você é livre para escolher, para decidir por si só em quem e no que acreditar ou desacreditar. De fato, isso é o que menos importa aqui e agora. O mais importante é viver e aprender sempre para poder conscientemente mudar e se renovar.

De maneira simbólica, todos nós morremos e renascemos fisiologicamente, emocionalmente, mentalmente e espiritualmente milhares de vezes durante nossa existência. Ao percebermos esse processo, começamos a expandir gradativamente a consciência do significado da vida...

Finalizo a estreia com Fernando Pessoa...

"Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão"

Mo Veiga

12 março, 2008


Aprendendo a aprender

Quando o treinamento se mantém inalterado por longos períodos, as tradições são transmitidas intactas para a próxima geração. Mas quando o que precisa ser aprendido muda com rapidez, especialmente no curso de uma única geração, torna-se muito mais difícil saber o que ensinar e como ensinar. Então os estudantes se queixam da relevância; diminui o respeito pelos mais velhos. Os professores se desesperam ao constatar como os padrões educacionais se deterioram e como os estudantes se tornaram apáticos. Num mundo em transição, tanto os estudantes como os professores precisam ensinar a si mesmos uma habilidade essencial - precisam aprender a aprender.

Carl Sagan

(A)benç(ã)oado

Nossa vida se desenrola em processos. São momentos que vão e vem e que, de uma forma ou de outra, se apresentam diante de nossos olhos como ciclos. Algo que se inicia em um determinado momento e se encerra logo depois. Esses ciclos podem ter longa duração ou serem curtos, quase dificeis de serem chamados ciclos. O fato é que observando de longe e dividindo a vida em esferas de atuação podemos notar que vivemos vários ciclos ao mesmo tempo.
Não necessariamente vivemos momentos semelhantes nessas diferentes esferas. Para ilustrar isso podemos pegar o ditado: Sorte no jogo, azar no amor.
E frase não nos coloca na situação de azar no amor se tivermos sorte no jogo, mas vale de consolo para aqueles que não conseguem congruencia entre essas esferas de atuação da vida cotidiana.
A forma cíclica da vida faz com que não entremos em desespero perante as fases ruins de nossos ciclos. Sabemos que logo se iniciarão novos momentos e dentro deles depositamos a esperança da mudança, de transformarmos o panorama do jogo ao contrário, fazendo ele atuar a nosso favor.
Outra forma de virar o jogo é a aceitação. A aceitação faz parte do processo de reflexão a que estamos sujeitos. Através dela podemos reconsiderar e mudar nossa relação com os elementos que nos causam tormento. Aceitamos o dado e começamos a estabelecer outras relações com ele, deixando de buscar o consolo, que é fruto de uma decepção, e indo atrás de novas descobertas ou novos caminhos no caminho que já se conhece.

Para alcançarmos o caminho da reflexão temos que ser incentivados. Seja por nós mesmos ou por elementos externos que despertam nossa atenção.
O bom mesmo é quando, acostumados com a inquietação do novo, não precisemos de mais incentivo nenhum. Partimos para cada experiência com o ofício de buscar o novo sempre.
Não ficando satisfeito com a chegada no final da corrida, mas tentando analisar cada parte dessa corrida com a consciência de que em todos os momentos que percoremos esse trajeto a nossa atitude poderia ter modificado o resultado final da ação.
Falamos de atitudes e de momentos.

Cada toque, cada olhar e cada sinal é extremamente importante e deve ser considerado na avaliação para a compreensão de nossas trajetórias. É lógico também que além das micro relações não devemos desconsiderar as macro relações, aquelas que fazem parte da estrutura do sistema em que vivemos e que determinam em grande parte cada toque, cada olhar e cada sinal que interagirá conosco.

Fazemos parte de uma infinidades de ciclos. Não somente os biológicos e sociais, que podem ser sentidos individualmente, mas algo mais complexo que alia esses dois e se transforma em um infinidade de possibilidades individuais, coletivas e estruturais.

Existe algo para além da matéria, algo que não podemos ver e nem sentir enquanto corpo físico. Algo que estrapola os limites humanos de compreensão (até é por isso que os sociólogos não conseguem dar as respostas que esse mundo quer - já diria Weber) E enquanto não podemos dizer nada sobre isso. Vamos vivendo, mentalizando boas energias e desejando a todos um caminho repleto de reflexões e questionamentos, para que não nos acostumemos com o que já está feito, nos tornando eternos aprendizes, para sempre insatisfeitos, eternos conhecedores.

E para inicio da reflexão coloco uma passagem que meu amigo - Felipe Trovão - me endereçou outro dia. Acho que é um bom "abre alas" para aqueles que começarão a trilhar novos caminhos e que precisam da tranquilidade necessária para observar onde vão pisar e em que lugar construirão seu castelo (e que esse castelo seja móvel - a rigidez da edificação pode levar o cidadão à estagnação). A passagem chama-se Benção Irlandesa.

Benção Irlandesa

Que o caminho seja brando a teus pés,

O vento sopre leve em teus ombros.

Que o sol brilhe cálido sobre tua face,

As chuvas caiam serenas em teus campos.

E até que eu de novo te veja,

que os Deuses te guardem nas palmas de Suas mãos

Que a estrada abra à sua frente,

que o vento sopre levemente em suas costas,

que o sol brilhe morno e suave em sua face,

que a chuva caia de mansinho em seus campos.

E até que nos encontremos de novo...

Que os Deuses guardem você na palma das Suas mãos.

Que as gotas da chuva molhem suavemente o seu rosto,

que o vento suave refresque seu espírito,

que o sol ilumine seu coração,

que as tarefas do dia não sejam um peso nos seus ombros,

e que Deus envolva você no seu manto de amor.

07 março, 2008


As idéias que surgem numa comunidade tomam força e energia. Não somos só nós que as possuímos, elas também nos possuem.
Edgar Morin

05 março, 2008

Aceitação



Não quero ter a terrível limitação de quem vive só o que é possível fazer sentido.


Clarice Lispector

04 março, 2008


CANÇÃO PARA UMA DESPEDIDA.
(Murilo Benzatti Moro)

Eu antecipo erros,
cometo deslizes,
enfio os pés pelas mãos por medo,
mudo minhas próprias diretrizes.

Gosto e desgosto do mesmo jeito,
deixo fluir enquanto aprecio,
paro por um segundo, me deito,
ai me vem aquela sensação de vazio.

Eu sinto muito, mas eu já não te amo mais
e com você eu digo que estarei andando pra trás.
Entenda, meu bem, que as coisas vem e vão.
Erga a cabeça como eu fiz, não tive medo do não.

Que conselhos amor? Que conselhos posso dar-te?
Será que é cedo pra dizer que é tarde?
Será que valemos todo esse alarde
ou somos apenas mais dois incomuns?

Dizer que o tempo cura tudo eu não digo,
é besteira que a gente diz no ombro consolado.
O tempo é um telhado que protege,
mas que sempre deixa entrar um raio ensolarado.

Que esse raio incendeie a chama que apago agora
e que tuas promessas de morte sejam apenas cantos.
Quem sabe o mundo é bem melhor lá fora
do que aqui junto dos meus e dos teus prantos.

Chorei demais amor, confesso
e digo que ainda há mais o que derramar,
mas prefiro molhar meu chão lá fora e me despeço
com um pedaço do que significou te amar.

Sei que a porta parece trancada por fora
e que agora talvez não seja a hora
de você partir com as minhas lágrimas,
mas a partida é pouco dolorosa quando se faz menos trágica.

Que fique a memória,
que fique o desejo,
que fiquem os beijos
e que o tempo conte a nossa história.

Por onde ela anda ?


Aonde ela vai ?

GIBRAN, CALVINO, HUCK e FERRÉZ


Outro dia eu estava lendo O PROFETA de GIBRAN KHALIL GIBRAN e entre todas as passagens (mensagens) que o livro nos permite usufruir, algumas me chamaram a atenção. O que faz um livro de 1923 ser tão atual e perturbador é o fato do autor estar preocupado em problematizar a vida e a condição em que vivemos, sendo essa condição a de estarmos juntos, compatilhando a mesma casa comum, o planeta terra, e com responsabilidades coletivas, como uma grande família, levantando questões que estrapolam o indivíduo, o coletivo e o estrutural. Chegamos com GIBRAN KHALIL GIBRAN a um ponto em que essas três frentes, a consciência individual, o todo coletivo e o extrato estrutural caminham juntas, indissociavelmente, com uma parte dependendo intimamente das outras duas.

Assim, o que se constroi em O PROFETA é uma corrente. Um elo entre os três mundos onde as influências e consequências são mutuas e inseparáveis. O leitor parte nesse livro para uma aprofundada (isso vai depender de sua vontade pessoal) introspecção filosófica, psicológica e social. Levantando questionamentos que extrapolam os próprios limites objetivos do livro e que podem resultar em mudanças práticas em sua vida.

Neste poste procurei trazer uma passagem de O PROFETA que me chamou a atenção e que, penso eu, tem proximidade intima com um texto que gosto muito do ITALO CALVINO, chamado CIDADES INVISÍVEIS. Além disso, ainda poderíamos linkar essas duas passagens que serão citadas abaixo com o episódio envolvendo o apresentador de televisão Lucino Huck e o escritor de literatura periférica Ferréz, que debateram publicamente sobre o problema da violência e da desigualdade social no Brasil.



O PROFETA – GIBRAN KHALIN GIBRAN

E ouvi isto, embora a palavra deva pesar rudemente sobre vossos corações:
O assassino é censurável por seu próprio assassínio.
E o roubado não é isento de culpa por ter sido roubado.
E o justo não é inocente das ações do mau.
Sim, o culpado é, muitas vezes, a vítima do ofendido.
E mais comumente ainda, o condenado carrega o fardo para o inocente e o irreprochável.
Vós não podeis separar o justo do injusto e o bom do malvado;
Porque ambos caminham juntos diante da face do sol, exatamente com os fios branco e negro são tecidos juntos.
E quando o fio negro rompe-se, o tecelão verifica todo o tecido e examina também o tear.



ITALO CALVINO – CIDADES INVISÍVEIS

Em vez de falar de Berenice, cidade injusta, que coroa com tríglifos ábacos métopes as engrenagens de suas máquinas de triturar carne, eu deveria falar de Berenice oculta, a cidade dos justos, atarefados com materiais de fortuna à sombra de almoxarifados e vãos de escada, atando uma rede de fios e tubos e roldanas e bielas e contrapesos, que se infiltra como uma trepadeira entre as grandes rodas dentadas; em vez de representar as piscinas perfumadas das termas em cujas bordas se estendem os injustos de Berenice enquanto tecem as suas intrigas com redonda eloqüência e observam com olhar dominador as carnes redondas das odaliscas que se banham, deveria falar de como os justos, sempre prudentes em evitar as declarações dos mentirosos e as armadilhas dos guardas do tirano, reconhecem-se pelo modo de falar, especialmente pela pronúncia das vírgulas e dos parênteses; dos costumes que parecem severos e inocentes eludindo os estados de ânimo complicados e sombrios; da cozinha sóbria mas saborosa que reevoca uma antiga idade de ouro: sopa de arroz e aipo, favas cozidas, flores de abobrinhas fritas.

A partir destes dados é possível inferir uma imagem da futura Berenice, que estará mais próxima do conhecimento da verdade do que qualquer notícia sobre o atual estado da cidade. Contanto que se tenha em mente o que estou para dizer: na origem da cidade dos justos está oculta, por sua vez, uma semente maligna; a certeza e o orgulho de serem justos – e de sê-lo mais do que tantos outros que dizem ser mais justos do que os justos -, fermentando rancores, rivalidades, teimosias, e o natural desejo de represália contra os injustos se contamina pelo anseio de estar em seu lugar e fazer o mesmo que eles. Uma outra cidade injusta, portanto, apesar de diferente da anterior, está cavando o seu espaço dentro do duplo invólucro das Berenices justa e injusta.

Dito isto, se não desejo que seu olhar colha uma imagem deformada, devo atrair a sua atenção para a qualidade intrínseca dessa cidade injusta quer germina em segredo na secreta cidade justa: trata-se do possível despertar – como um violento abrir de janelas – de um amor latente pela justiça, ainda não submetido a regras, capaz de compor uma cidade ainda mais justa do que era antes de se tornar recipiente de injustiça. Mas, se se investiga ulteriormente no interior deste novo germe de justiça, descobre-se uma manchinha que se dilata na forma de crescente inclinação a impor o justo por meio do injusto, e talvez seja o germe de uma imensa metrópole...

Pelo meu discurso, pode-se tirar a conclusão de que a verdadeira Berenice é uma sucessão no tempo de cidades diferentes, alternadamente justas e injustas. Mas o que eu queria observar é outra coisa: que todas as futuras Berenices já estão presentes neste instante, contidas uma dentro da outra, apertadas espremidas inseparáveis.



PENSAMENTOS QUASE PÓSTUMOS – LUCIANO HUCK

Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa
LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do “Jornal Nacional” de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.
não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.
Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.
Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.
Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.
Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.
Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.
Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.
Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase “infantis” para uma sociedade moderna e justa.
De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.
Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.
Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de “extraterrestres” fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?
Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal.
Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.
Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: “Cansei”. O Lobão canta: “Peidei”.
Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.Isso não está certo.



PENSAMENTOS DE UMA CORRERIA - FERRÉZ

"Ele não terá homenagem póstuma se falhar. Pensa: "Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?"ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto. Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos. Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada. O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga. Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita. Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal. Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito. Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber. Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado? Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém. Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto. Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora. Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso. Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo. A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.