23 junho, 2009

If you say so - Alem



Instituições totalitárias permeiam a nossa vida.
Do nascimento a nossa morte temos contato com várias dessas instituições, seja o estado, a igreja ou a escola.
Todas elas tem um mote, um objetivo na sua existencia e reprodução.
Existem com a justificativa baseada na dinâmica social. Nossa atual geração só conhece o mundo com a existência delas. Atualmente não acredito que existam muitas pessoas no universo que pensam o planeta terra livre das instituições totalitárias.
A, aparentemente, mais catequizadora e castradora instuição que temos atualmente, a igreja, a muito não é obrigatória, porém continua entre nós. Influenciando nossas atitudes e, assim, o nosso futuro.
O Estado, coitado. Está aí também. Você nasce e já pertence a ele. Antes mesmo de se pertencer a si mesmo.
A Escola, vai ganhando força como berço da nação. Nas reuniões da ONU a importância da educação é sempre reforçada. É o primeiro passso. A tacada inicial. O primeiro teste. A primeira prova.

Todas essas intituições tem leis e regras. Coordenam o ritmo da nossa caminhada. Dizem o que podemos e o que não podemos fazer. Incriminam e recriminam. Julgam e subjulgam.
Fazem o que seus líderes querem.
E para isso, contam com instrumentos de repressão.
Temos a polícia no Estado,a diretoria na escola e o inferno(quando não a inquisição) na igreja.
Exorcizados e queimados todos os pecados/pecadores vão para "o saco".
O sem fundo, o sem consideração, o sem futuro.
É como se as pessoas recebessem um carrimbo. Daqueles que servem para marcar o gado.
NEGADO! REVOGADO! BANIDO! (o imprestável)

Funciona assim, você tem um empresa que produz livros.
A bobina que alimenta a quantidade de papel a ser impresa ficou velha e quebrou, porém ainda funciona. Mas não está mais produzindo de acordo com o necessário.
Para resolver o problema você compra outra bobina. Nova, cheia de força e energia e que pode aguentar por um bom tempo o processo de fabricação dos livros.
Essa nova bobina foi escolhida no meio de milhões de bobinas que foram fabricadas pela empresa de bobinas. Todas são igualmente identicas. O que as diferencia é o momento e o ponto no espaço que cada bobina ocupa. Isso faz com que algumas bobinas tenham o privilégio de ser utilizadas para fazer livros e etc, enquanto outras vão para o estoque de bobinas. Algumas bobinas tem a sorte de serem vendidas e aproveitadas, enquanto outras são postas de lado, esperando a chance de um dia serem utilizadas para demonstrar a sua capacidade. Entretanto as que não são vendidas vão para o arquivo morto, sendo substituidas por bobinas novas, feitas com nova tecnologia, fruto de um processo escolar atualizado.
E tudo começa novamente.
A troca da bobina é naturalmente aceita e tem caracter de necessidade!

Esse esquema é tão forte que as pessoas incorporam essa visão.
Se transformam na própria reprodução do sistema. Fazendo com que esse ganhe força e viva através do cotidiano.
E o que um dia eram meras bobinas se tornam meras pessoas.
Porém, na contabilidade final - Ambos são números.
E quando tudo são numeros tudo é naturalmente frio e sensato.
Julgar, Repossicionar, Negar, Recriminar, Avaliar, Contabilizar, Somar, Cortar, Estudar, Comprar, Fazer, Desejar, Se Preocupar, Crescer, Desenvolver, Vencer, Dizer Alem, Ir ao Museu e Dizer Alem.

22 junho, 2009

O paradoxo da qualidade de vida

A qualidade de vida é um ideal bastante difuso mas que, aparentemente, estamos todos precisando. Hoje em dia, é obrigatório termos qualidade de vida. O conceito de qualidade de vida é usado para vender desde seguros a laxantes. A mídia nos sugere que, para ter qualidade de vida, é preciso ter. Ter alguma coisa, produtos, serviços ou o que o publicitário da hora quiser nos vender. Geralmente, anúncios ligados à qualidade de vida apresentam fotografias de crianças sorridentes, cães da raça labrador e jardins floridos.
Mais além da pressão pelo consumo que a sociedade possa nos impor, acredito que a qualidade de vida não esteja apenas em adquirir esses produtos ou serviços, nem apenas em respirar ar puro ou alimentar-se bem. Qualidade de vida, num sentido mais amplo, é também ser dono do seu próprio destino, ser capaz de fazer da sua vida uma obra de arte.
Podemos distinguir três diferentes aspectos na qualidade de vida: 1) a qualidade da relação que mantemos com a natureza, 2) a qualidade da relação que mantemos com os demais, e 3) a qualidade da relação que mantemos com nós mesmos.

1) A relação com a natureza
A qualidade de vida, no primeiro aspecto, significa verificar se o ar que respiramos é o ar que gostaríamos de respirar, ver se a água que bebemos é a água que gostaríamos de beber, se o chão que pisamos é o que gostaríamos de pisar, etc. A sociedade urbana contemporânea organizaou a vida humana de tal maneira que há muito pouco espaço para o contato com a natureza.
Por exemplo, você lembra quado foi a última vez que sentou à frente de uma fogueira? Quando foi a última vez que viu ao vivo uma baleia ou um golfinho? Você consegue apontar para o norte desde a janela do seu quarto? Em que fase encontra-se a lua neste momento? Dedicar alguns momento diários ao contato com a natureza, seja tomando sol, caminhando descalço ou apenas sentando embaixo de uma árvore, são pequenos atos que nos trazem calma e nos ajudam a harmonizar nossos ritmos interiores com o ritmo em que pulsa a força criativa do universo.

2) A relação com os demais
Todas as relações humanas, bem como aquelas que fazemos em direção à natureza, deveríam estar pautadas pela princípio áureo da reciprocidade: não faça aos demais aquilo que não gostaria que os demais fizessem consigo. Ésta afirmação é universal, e pode ser encontrada, com pequenas variações, em todos os códigos de convivência de todas as culturas e civilizações. Da mesma forma, deveríamos estender essa atitude a todas as criaturas vivas. Isso chama-se dharma. Ninguém devería questionar o direito do outro a viver.
Os humanos, diferentemente das plantas e dos animais, somos dotados de livre arbítrio. Todos damos muita importância à nossa liberdade mas, a bem da verdade, nem sempre sabemos o que fazer com ela. Quando os atos nascidos do meu livre arbítrio ferem o direito dos demais, estou atropelando o dharma. Isto não produz desconforto imediato apenas para o outro, mas também para mim mesmo. Nem sempre consigo perceber isso de maneira clara a conexão entre o desconforto do outro e o meu próprio desconforto.
Muitas vezes exigimos atitudes dos demais em relação a nós mesmos, mas não estamos dispostos a sermos recíprocos fazendo a nossa parte.

3) A relação consigo próprio
Este terceiro aspecto da qualidade de vida, acredito, é o mais importante de todos. Como podemos estabelecer alguma relação com nós mesmos, se não nos conhecemos? Meu amigo Shane McCrudden, da Austrália, realizou um documentário muito interessante chamado The Burning Question, título que poderíamos traduzir livremente para o português como “a pergunta que não quer calar” ( http://www.youtube.com/watch?v=A69GMYraXsQ ). Ele entrevistou muitas pessoas diferentes, fazendo a todas uma única pergunta: “quem é você, realmente?” É incrível como as pessoas, defronte à pergunta, desviavam os olhos da lente e só respondiam com evasivas ou com um constrangedor silêncio recheado de expressões faciais muito eloqüentes.
A imensa maioria das pessoas não consegue relacionar-se corretamente consigo próprias por causa do analfabetismo existencial. Nós não sabemos quem somos. Isto é mais grave do que não saber onde fica o Brasil no mapa-múndi. Se não tenho claro quem sou, como poderei me relacionar comigo mesmo e com os demais? Além das necessidades do meu corpo, das dúvidas da minha mente ou dos desejos do meu ego, eu sou uma pessoa simples e tranqüila, e que a matéria prima da qual estou fabricado é felicidade e plenitude, verdadeira e auto-consciente. Nada mais. Tendo isso claro, percebo a minha qualidade de vida como um objetivo mais concreto e fácil de ser alcançado.

A boa vida é a vida feliz


A idéia de qualidade de vida nos lembra aquilo que na Grécia antiga, há mais de 2300 anos, o filósofo Aristóteles chamou a boa vida. Boa vida não é exatamente o “vidão” que está no imaginário da maioria das pessoas.
O resultado dessa boa vida é um estado de felicidade que está vinculado com a realização mais elevada do ser humano, que Aristóteles denominou eudaimonia. A boa vida, segundo ele, é uma condição na qual os indivíduos podem viver plenamente felizes e realizados. Não é apenas ter alegria, conforto, prazer ou segurança.
Este filósofo considerava a ética como uma ciência prática, na qual fazer era mais importante do que apenas refletir, e que ela que tinha um papel fundamental na realização da boa vida. Assim, ele ensinava que todas as ações humanas deviam estar em função desse bem maior que é a felicidade, que ao mesmo tempo permeia e resulta da boa vida. Aristóteles pensava que, para realizar a boa vida, devemos viver uma vida equilibrada, evitando os excessos, e que esse equilíbrio deve ser individualizado para cada pessoa.

O caminho do meio


Algo que caracteriza o pensamento deste grande filósofo é a busca do caminho do meio, que ele chamou de meio áureo. Esse meio áureo é o ponto de equilíbrio desejável entre o excesso e a deficiência. Por exemplo, no caso do sentimento de coragem, é preciso encontrarmos o ponto de equilíbrio entre o medo e a confiança. Excesso de medo ou falta de confiança podem nos imobilizar. Excesso de confiança ou ausência de medo podem nos levar a agir de modo torpe ou precipitado. O mesmo vale para os demais sentimentos vinculados com a tomada de decisões e a realização de ações.
O florescer da felicidade nada tem a ver com honra, riquezas ou poder, mas com a atividade racional dentro dos parâmetros da virtude. Trocando em miúdos, com fazer a coisa certa. Tal atitude manifesta virtudes do carácter como a honestidade, a fraternidade, a temperança e a eqüanimidade. Esse estado de plenitude ativa foi chamada summun bonum, o bem supremo, aquele fim que não serve como meio para mais nada, mas que justifica todos os meios, pois é o fim definitivo.
A boa vida não é uma vida de busca de prazeres ou satisfação pessoal, mas é a vida mais prazerosa. A boa vida não é uma vida que busque a riqueza pela riqueza em si mesma, mas um fim ao qual a riqueza está subordinada. A boa vida não alimenta a necessidade de reconhecimento por parte dos demais, pois a pessoa que a cultiva encontra a dignidade intrínseca a ela própria. A boa vida não busca a virtude, pois a virtude é uma conseqüência de cultivar a consciência, e não a causa dela.
Em suma, a vida de uma pessoa plena, satisfeita e feliz, é uma vida completa em si mesma. Concluíndo, podemos perceber a importância do auto-conhecimento para termos uma vida plena e feliz. Sem esse auto-conhecimento, de nada nos vale ter uma vida próspera e confortável, num lugar tranqüilo onde se respira ar puro, pois continuaremos sem contentamento.


Pedro Kupfer



Pedro Kupfer é uma das pessoas mais sensatas que conheci, por isso resolvi compartilhar um dos seus textos.

16 junho, 2009

Felicidade palavra coletiva

Foi, voltou e terminou no canto.
A festa não era das mais animadas, porém ele também não consegui encontrar dentro de si a alegria para se motivar por conta própria.
A culpa caiu sobre a música, as pessoas, o ambiente e o preço das bebidas.
Não que não existisse uma auto-crítica. Pelo contrário, esse movimento cerebral estava em ação a todo o momento. Entretanto, seria um fardo muito pesado a ser carregado pelo próprio corpo, precisava compartir o fardo da derrota com o mundo.

Sim, a infelicidade precisa ser compartilhada, da mesma forma que a felicidade é. Se a felicidade é coletiva, porque não fazer da infelicidade a mesma matéria.
A gente atribui à x, y e z os motivos da nossa alegria. Que seja a sorte, o detalhe ou o conjunto. Tudo conspirando na mesma direção, fazendo nosso astro brilhar. Transformando o cinza em azul e assim por diante.
Mas de onde vem a tristeza? Seria a falta de sorte a origem da tristeza? Seriam vários detalhes? Seria todo o conjunto? Dificil explicar.
Provas e contrasprovas estão por todos os cantos. Podemos encontrar diversos tipos de pessoas, das mais variadas, das que tem todos os bens materias e são infelizes as que não tem nada disso e são felizes.

Eu penso e repenso essa condição. Sinto isso na minha vida, a cada passo. Parece até que é culpa do chão. Como aquelas vezes que vc esta quentinho e pisa descalço sobre o chão gelado da cozinha. Seu corpo não esfria direto, vai esfriando aos poucos, e quando vê, está com frio.
Sinto isso. Minha vida esquenta e esfria. Parece até que o calor é o motivador do frio e o frio é o motivador do calor, ou felicidade gera a infelicidade e vice e versa. Valorizo o passado quando percebo isso. Valorizo cada momento, cada interação. Tenho a certeza que ela foi única e teve uma razão de ser. Sou o que sou por conta do que passei, do que vivi e do que consegui absorver para mim. Humm, e estava esquecendo, sou o que sou também por conta do que consegui transmitir para os demais que estão a minha volta.

Afinal, se a felicidade (e a infelicidade) é coletiva mesmo, espero poder ser o propagador da mesma, seja pelos momentos que vivo por mim ou pelos que vivo através de meus companheiros. E espero que aos meus companheiros eu não seja só um felicidade-suga, mas um infelicidade-suga também, e que nesse proceso eu também possa ajuda-los a compreender melhor todas as fazes da vida.

Falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de métodos.

Albert Einstein

02 junho, 2009




Some people think personal desire transcends economic and social differences, and they say: "My feelings will not be represented". But personal happiness is inseparable from the world in which it must find expression: precisely beacuse they transgress normal expectations of who can marry whom, our private feelings have unavoidably public significance!


30 maio, 2009

Cesse o sopro, então inspire nada mais



Faz tempo estou para postar algo neste estimado blogue. Vinham idéias, eu escrevia estas idéias. De tom poético, de tom político, de tom científico, de tom espiritualista. Tais divisões agora de muito pouco valem. Se olhamos janela afora, e se principalmente olhando para nosso próprio centro decidimos que nosso próprio sorriso e nossos sorrisos outros merecem constar no topo de qualquer lista, divisões se apresentam como equívocos e à unidade orienta-se nosso interesse.
Nem esta pequena introdução constava em escrever. E repito que várias vezes ensaiei postar algo neste blogue, mas escrevia e reescrevia e acabava não postando. Porém, hoje escrevi algo e tive vontade de compartilhar, mas faltando espaço, me lembrei do blogue e me motivei em deixar aqui. Estas palavras anteriores são mais no intuito de expressar a vontade da "troca de idéias" e a importância de um sempre presente diálogo criativo que nos colabore para "balançar" a vida, sem precisar de banco, que ainda assim possa contribuir para nos inventar a vida. Deixo, portanto, um simples texto que me veio.


Cesse o sopro, então inspire nada mais


Envolto em problemas científicos, canções de amor e futuros esquecidos.
Ao que aqui tudo é problema, perdendo a ciência, alheado seu amor e desvanecido o futuro.
Sobra quem para te ouvir cantar? Que é válido de se cantar?

Quando grita:
_Quero viver! Quero viver!

Por que então não vive?
A vida se ausentou de seu lado?
Em seu íntimo que agora habita?

Amanhã é tudo igual
Mataram os perfumes, as músicas e as cores.
Teu olhar já não chega mais,
nem me chegará.

Mas sonhe comigo,
pois eu sonho contigo.
Eu sei.

Somente isso,
eu sei.

02 maio, 2009

Quem está doente: Adriano ou os outros?

Quem está doente: Adriano ou os outros? (Retirado do Blog do Emir Sader - http://www.cartamaior.com.br/templates/blogMostrar.cfm?blog_id=1&alterarHomeAtual=1)

Que sociedade é esta que, quando alguém diz que não estava feliz no meio de tanto treino, tanta pressão, tanta grana, tanta viagem, que prefere voltar à favela onde nasceu e cresceu, compra cerveja e hambúrguer para todo mundo, fica empinando pipa – se considera que está psiquicamente doente e tem que procurar um psiquiatra? Estará doente ele ou os deslumbrados no meio da grana, das mulheres, das drogas, da publicidade, da imprensa, da venda da imagem? Quem precisa mais de apoio psiquiátrico: o Adriano ou o Ronaldinho Gaucho?

O normal é ter, consumir, se apropriar de bens, vender sua imagem como mercadoria, se deslumbrar com a riqueza, a fama, odiar e hostilizar suas origens, se desvincular do Brasil. Esses parecem “normais”. Anormal é alguém renunciar a um contrato milionário com um tipo italiano, primeiro colocado no campeonato de lá.

Normal é ser membro de alguma igreja esquisita, cujo casal de pastores principais foram presos por desvio de fundos. Normal é casar virgem, ser careta, evangélico, bem comportado, responder a todas as solicitações e assinar todos os contratos. Normal é receber uma proposta milionária de um clube inglês dirigida por um sheik, ficar pensando um bom tempo, depois resolver não aceitar e ser elogiado por ter preferido seu clube, quando antes ele ficou avaliando, com a calculadora na mão, se valia a pena trocar um contrato milionário por outro.

Considera-se desequilibrado mental quem recusa um contrato milionário, para viver com bermuda, camiseta e sandália havaiana. Falou à imprensa de todo o mundo, disposta a confissões espetaculares sobre o que havia feito nos três dias em que esteve supostamente desaparecido – quando a imprensa não sabe onde está alguém, está “desaparecido”, chegou-se até a dizer que Adriano teria morrido -, buscando pressioná-lo para que confessasse que era alcoólatra e/ou dependente de drogas, encontrar mulheres espetaculares na jogada.

Falou como ser humano, que singelamente tem a coragem de renunciar às milionárias cifras, eventualmente até pagar multar pela sua ruptura, dizer que “vai dar um tempo”, que não era feliz no que estava fazendo, que reencontrou essa felicidade na favela da sua infância, no meio dos seus amigos e da sua família.

Este comportamento deveria ser considerado humano, normal, equilibrado. Mas numa sociedade em que “não se rasga dinheiro”, em que a fama e a grana são os objetivos máximos a ser alcançados, quem está doente: Adriano ou essa sociedade? Quem ter que ser curada? Quem é normal, quem está feliz?

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo (retirado do sítio da Carta Maior - http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15965)

No segundo texto da série "Marxismo e Século XXI", Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx: "Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica", defende.

“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.

(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fenômeno que Perry Anderson chamou de “marxismo ocidental” (Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), - resultado da combinação negativa da stalinização dos partidos comunistas e da repressão fascista - passou a haver uma ruptura entre teoria e prática, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da prática política, com a correspondente autonomização do discurso teórico. As estruturas partidárias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elaborações e debates teóricos e políticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da prática política. Seu correlato foi a prática política partidária desvinculada da elaboração teórica.

Inevitavelmente a analise e a denúncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas também um deslocamento a favor da teoria desvinculada da prática política. Prática política sem teoria, teoria sem prática – os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A prática política da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estratégia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a visões especulativas, de simples denúncia, de polêmicas ideológicas em torno os princípios, sem desdobramentos práticos.

Nas décadas mais importantes até aqui da sua trajetória – dos anos 20 do século passado em diante -, a esquerda não pôde contar com a articulação entre seus melhores intelectuais para elaborações que contribuíssem diretamente para enriquecer sua prática política e, ao mesmo tempo, um período de extraordinária riqueza na elaboração teórica do marxismo, não esteve diretamente articulada com a prática, enriquecida por ela e apontando temas e relações concretas de força.

A afirmação de Lênin que encabeça este artigo remete exatamente a isso: não existe um momento de elaboração teórica e depois um momento de aplicação concreta das conclusões teóricas. O marxismo articula intrinsecamente a política e as questões de organização, como uma das expressões da articulação entre teoria e prática. Uma analise marxista que não se articule com projetos de transformação revolucionária, castra o marxismo da sua diferença específica em relação a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e não articula seu pensamento com a prática político-partidária, não assume o marxismo como pensamento dialético, como motor da prática política concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as relações de força políticas, de não captar os movimentos reais da história. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que não pôde aliar a imensa criatividade teórica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, à transformação dessa teoria em força material, pela penetração nas massas – conforme a afirmação de Marx. Perdeu a teoria sua dimensão transformadora, perdeu a prática política a imensa capacidade analítica da teoria.

Esse descolamento é politicamente grave, sendo responsável por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam legítimos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem razão contra o abastardamento da política. (O próprio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo prefácio de História e consciência de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido razão e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da política.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade – sempre heterodoxa – ficam com a teoria e se isolam da prática, dos caminhos reais da história concreta.

Essa distância se torna ainda mais grave quando o mundo vive situações inéditas – hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibição clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da construção de alternativas anticapitalistas -, em que a reflexão teórica articulada com a prática política se torna ainda mais indispensável. O refúgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitulações políticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajetória empírica, de adaptação correlações de força desfavoráveis por parte de forças políticas, constitui um quadro negativo, desfavorável à construção de soluções superadoras da enorme crise hegemônica que vivem nossos países e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fenômeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Se trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica. Exemplos da articulação entre capacidade de elaboração teórica e de direção política fora, na América Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano José Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera – demonstrando a factibilidade dessa articulação e de como ela fertiliza tanto a criação teórica, quanto a prática política.

A imagem do marxista universitário, desvinculado da prática política é uma contradição em termos, uma incoerência, da mesma forma que dirigentes políticos marxistas que não sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucionários. O ponto de vista do marxismo é um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumulação de forças para um objetivo estratégico, programático. Não se trata defender a teoria como cânone teórico intocável, mas de resgatar o marxismo como metodologia – sua única dimensão ortodoxa, segundo Lukacs -, de crítica e de superação da realidade existente.

Galeano

Retirado do sítio da Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm?idioma_id=1&alterarHomeAtual=1):

O Brasil é dos poucos países em que os artigos de Galeano não são publicados regularmente na imprensa – apesar de ele ser o melhor escritor latino-americano contemporâneo. A Carta Maior publicará, ao longo do ano, textos dos três últimos livros de Galeano publicados no Brasil pela LP&M, "De pernas pro ar", "Bocas do Tempo" e "Espelhos. A estréia é com textos do primeiro deles.

Carta Maior também dá Galeano de presente. Quem ganha são seus leitores. O Brasil é dos poucos países em que os artigos de Galeano não são publicados regularmente na imprensa – apesar de ele ser o melhor escritor latino-americano contemporâneo. De tempos em tempos, podemos ler seus textos em livros que os reúnem. Recolheremos ao longo deste ano textos dos três últimos – "De pernas pro ar", "Bocas do tempo" e "Espelhos" – todos publicados no Brasil pela LP&M. Hoje começamos com textos do primeiro deles.

Educando com o exemplo

A escola do mundo ao avesso é a mais democrática das instituições educativas. Não requer exame de admissão, não cobra matrícula e dita seus cursos, gratuitamente, a todos e em todas as partes, assim na terra como no céu: não é por nada que é filha do sistema que, pela primeira vez na história da humanidade, conquistou o poder universal.

Na escola do mundo ao avesso o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar. As cobras aprendem a voar e as nuvens a se arrastar pelos caminhos.

Os alunos

Dia após dia nega-se às crianças o direito de ser crianças. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.

Curso básico de injustiça

A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições de nosso tempo as páginas policiais dos jornais ensinam mais do que as páginas de informação política e econômica.

Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador e desigual: igualador nas idéias e nos costumes que impõe e desigual nas oportunidades que proporciona.

Pontos de vista /1

Do ponto de vista da coruja, do morcego, do boêmio e do ladrão, o crepúsculo é a hora do café-da-manhã.

A chuva é uma maldição para o turista e uma boa noticia para o camponês.

Do ponto de vista do nativo, pitoresco é o turista.

Do ponto de vista dos índios das ilhas do Mar do Caribe, Cristovão Colombo, com seu chapéu de penas e sua capa e veludo encarnado, era um papagaio de dimensões nunca vistas.

29 abril, 2009

Humor ou reprodução da violência


Uma camiseta ostentando uma palestina grávida sob uma alça de mira e a inscrição "Um tiro duas mortes". Foi a imagem escolhida por snipers (atiradores de elite) da infantaria israelense. Outras t-shirts exibem bebés mortos, mães a chorarem sobre os túmulos dos seus filhos, armas apontadas a crianças e mesquitas bombardeadas. Há uma loja em Tel Aviv especializada em imprimir as ditas camisetas e cada pelotão escolhe a imagem que vai usar. As atrocidades praticadas pela entidade nazi-sionista já não são escondidas – são mesmo exibidas.

Essa proposta já saiu de Israel e encontrei as camisatesas sendo vendidas na Irlanda, nas lojas de Dublin.

Será esse um humor refinado ou mera reprodução da violência ?

Tem coisas que perdem a razão ...

17 abril, 2009

Estupro



Palavra forte

Todas as vezes que ouvimos a palavra estupro nos recordamos de sinônimos como: coito forçado, ameaça, constrangimento, trauma, violência, violação, perda dos direitos sexuais e perda da liberdade.

Apesar de ser uma palavra totalmente carregada de negatividades, o ato do estupro pode ser julgado de diferentes formas, dependendo do caso de estupro.
Algumas pessoas acreditam que a violação dos direitos sexuais de uma menina de 10 anos é completamente diferente da violação dos direitos sexuais de uma mulher de 30 anos e por isso deve ser julgado de outra forma. A razão para essa opinião - inocência, ou a falta dela.

Dizem que quando criança, até o momento da adolecência, um ser humano é incapaz de expressar forçadamente a sexualidade ou se incinuar sexualmente de propósito. Todas as suas atitudes e reflexos estão condicionadas a inocênia de seu estado. Um estado que ignora a prática sexual e que não se importa com o comportamento do corpo (apesar de seu corpo já estar adestrado de acordo com as regras sociais - isto é - já carrega sensualidade e intenções, mesmo que elas sejam não intencionais).

Entretanto, quando uma mulher de 30 anos coloca uma mini-saia para sair de casa e se movimenta confortavelmente pela rua, ela está automaticamente se colocando na condição de vítima, ou seja, ela está provocando a condição de violada.
A idéia de colocar a vítima como uma influenciadora direta da condição de estuprada não é de hoje. O reflexo desse pensamento moralista pode ser constatado em qualquer pesquisa de opinião popular que pergunte aos intrevistados opiniões simples sobre o comportamento do corpo e o uso das roupas.

Para ilustrar, podemos pegar alguns dados elaborados pelo jornal "Irish Examiner" (Irlanda) e republicada pela revista "RAG" (revista do grupo anarcha-feminista de Dublin - http://www.ragdublin.blogspot.com/):
  • 25% percent of people questioned believe that women who had been raped were in some way to blame for the attack.

  • 10 % of people think the victim is entirely at fault if she has had a number of sexual partners.

  • 37% think a woman who flirts extensively is at least complicit, if not completely in the wrong, if she is the victim of a sex crime.

  • One is three think a woman is either partly or fully to blame if she wears revealing clothes.

  • 38% believe a woman must share some of the blame if she walks through a deserted area.

  • 25% believed a woman who was drunk and took illegal drugs was either partly or fully to blame.
De acordo com os dados levantados, podemos ver a sociedade irlandesa como parcialmente reacionária. Foram menos de 40% das pessoas entrevistadas que colocaram a culpa sobre a vítima, isentando parcialmente o estrupador pelo crime cometido.
Apesar do número de entrevistados reacionários não ser grande, preocupa o fato deles existirem.
Chama ainda mais a atenção quando a opinião do grupo sobre o ato do estupro começa a ser relacionado com outros comportamentos como, o consumo de drogas e álcool, a escolha pelo caminho público(ruas - ilumindadas ou mal-cuidadas) e, principalmente, as roupas escolhidas para o passeio aos locais públicos.

Será que o uso de substâncias (drogas e alcool) aumenta a chance da pessoa ser estuprada?
Pode até ser. A pessoa fica mais vulnerável. Mas isso não tem nada ver com o estuprador. É ele que provoca o estupro, é ele que força a situação. Quem utilizou as substâncias danosas não está pedindo, como o uso das substâncias, para que se torne vítima de nenhuma situação. Ou seja, não tem nada a ver culpar a pessoa que usou drogas ou álcool de ser cumplice sobre o ato. O coito forçado e o uso de drogas são coisas completamente diferentes.

Culpar a escolha do caminho público como sendo primordial no condição de ter seus direitos sexuais violados também é irracional. Ao invês de culpar o Estado ou os responsáveis pelos maus cuidos dos locais públicos, algumas pessoas preferem culpar a vítima do estupro como responsável pelo ato inconsequente de escolher caminhos "perigosos" em suas idas e vindas. A escolha das vias públicas se torna uma escolha da vítima no que se refere ao seu próprio desejo em se expor ou não ao estupro.

E para terminar, a escolha da roupa.
Esse ponto é mais delicado que os demais mencionados acima.
Aqui temos o moralismo claramente atuante como um influenciador direto na opinião das pessoas.
A partir do momento em que uma pessoa começar a julgar o uso de determinadas roupas por outra pessoa, o moralismo começa a pesar.
Não discordo que alguém possa utilizar determinadas roupas com a intenção de provocar reações. Mas também essas reações estão condicionadas aos tabus presentes no corpo humano.
Se aceitarmos o corpo humano, e seus movimentos, como algo em si, destacados de moralismos e tabus, provavelmente começaremos a reconsiderar a utilização das roupas e suas intenções.
A roupa viraria uma condição de conforto, e não mais de posição social e proposta.
Entretando, essa idéia está muito longe do real. O corpo humano, seus movimentos e as roupas estão transbordando de tabus e idéias prontas, pré-conceitos que determinam sua presença, utilização e reprodução.
É por isso que um de cada três irlandeses acreditam que a mulher é culpada de estupro se estiver utilizando roupas provocativas. E acredito que os números produzidos com essa pergunta devam se reproduzir pelo mundo afora.

Quem, de qual país do mundo, discordaria que mini-saia e decote muda a relação de uma pessoa com outras? Algumas sociedades até proibem essas vestimentas.
Algumas sociedades proibem as mulheres de ter vida pública.

Esse assunto dá muito pano para a manga. Vou parar por aqui.

a opressão está por todos os lados...

30 março, 2009

Direto do blog - José Saramago

Raposa do sol

Lá de longe em longe o dia amanhece diferente. Que o digam os índios da reserva indígena da Raposa do Sol no Estado de Roraima, ao norte do Brasil, a quem o Supremo Tribunal Federal acaba de reconhecer e confirmar definitivamente o seu direito à plena posse e ao uso pleno dos mil quilómetros quadrados de superfície da reserva. A sentença não deixa qualquer margem a dúvidas: os não índios devem sair imediatamente da Raposa do Sol, assim como as empresas arrozeiras que durante anos invadiram o território e nele se instalaram abusivamente. Já em 2005 o presidente Lula havia decidido a entrega da reserva aos indígenas e a saída das empresas arrozeiras, mas as autoridades do Estado de Roraima, favoráveis aos arrozeiros, recorreram ao Supremo Tribunal por considerarem inconstitucional o decreto presidencial. Quatro anos depois o Supremo decide a questão e põe uma definitiva pedra sobre o assunto. Nem tudo, porém, são rosas neste idílico quadro. Afinal, a luta de classes, tão discutida em épocas relativamente recentes e que parecia haver sido condenada ao caixote do lixo da História, existe mesmo. Com esta visão unilateral que temos, nós, os europeus, dos problemas sociais da América Latina, tendemos a ver unanimidades onde elas não existem nem existiram nunca. Na Raposa do Sol, os índios endinheirados, que também lá os há, fizeram causa comum com os não índios e com as empresas arrozeiras. A festa foi dos outros, dos pobres.

Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?

27 março, 2009

Perspectiva




É na esfera política e pública que realizamos nossa condição humana. O mais radical revolucionário tornar-se-á um conservador no dia seguinte à revolução.

Hanna Arendt

05 março, 2009

O que vc tem a ver com isso?

Porque apoio o MST.

Eu sou José Jonas Duarte da Costa. Sou professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da UFPB – Universidade Federal da Paraíba. Atualmente coordeno o curso de História para os Movimentos Sociais do Campo nesta Universidade. Sou graduado em História, mestre em Economia e doutor em História Econômica pela USP.

Diante da ofensiva de setores reacionários da sociedade brasileira contra o MST venho a público prestar minha irrestrita solidariedade e apoio a esse movimento social popular que hoje é o depositário da resistência democrática e da luta por um tempo melhor de justiça e paz na sociedade brasileira.

Minha aproximação com o MST ocorreu quando o nosso Departamento de História aprovou, ainda em 2004, um curso de história para os movimentos sociais do campo, em parceria com o PRONERA – Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, do INCRA/MDA, cujo demandante era o MST.

Nessa aproximação pude constatar que o MST é o que há de novo e revolucionário na sociedade brasileira, em termos de sua postura ética e dos valores disseminados. Há um código de postura no MST que se baseia na solidariedade, na justiça e na democracia interna, respeitando as diferenças, mas mantendo a unidade da ação política e social.

Nos primeiros quatro anos que convivemos com os alunos do MST, nós do mundo acadêmico tivemos a oportunidade de apreender com os (as) militantes do Movimento valores olvidados em nosso dia a dia de atividades de pesquisas e de ensino, numa universidade que parece fria diante do mundo ao redor. O MST trouxe à academia brasileira a vibração e os questionamentos de uma sociedade prenha de contradições, desigualdades e injustiças. Mas também trouxe métodos, técnicas e teorias baseadas na solidariedade com o próximo, na honestidade e na crítica corajosa da academia. Por isso conquistou a todos docentes, discentes e servidores que conheceram essa nova postura diante da sociedade alienada, consumista e individualista em que vivemos. Mostrou-se ser um pólo de aglutinação da resistência democrática. Sem partidarismos ou sectarismos, ao mesmo tempo em que se tornou pólo de aglutinação para os que lutam por um mundo de justiça e de liberdade. Para quem tem visão emancipadora para os oprimidos da Terra.

Por isso os fascistas, os reacionários e os adesistas da ordem perseguem e tentam criminalizar o MST. Porque ele, o Movimento, é avesso às injustiças. Porque não se cala diante das ignomínias. Porque denuncia a exploração. Porque organiza o povo. Porque eleva o nível político cultural das massas trabalhadoras. Porque desperta o povo brasileiro para lutar por justiça, por igualdade, por emancipação. Essa atuação do MST desperta a ira da classe dominante brasileira. Essa classe dominante que não pode ser chamada de elite para embelezar sua trajetória histórica suja e vergonhosa. Classe dominante escravocrata, preconceituosa. Que mantém sua opulência e consumismo à custa do sofrimento, da fome, da miséria e do abandono em que vivem milhões de brasileiros. Classe dominante que se associou submissa aos magnatas do capital internacional para entregar a pátria, nosso patrimônio comum. Deram de mãos beijadas a Vale do Rio Doce, a CSN, a TELEBRÁS e parte da PETROBRÁS. Classe dominante que se apropria por grilagem descarada das terras públicas na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado e em várias partes do Brasil; que mantém trabalhadores escravos em sua sanha de acumulação nas mais modernas fazendas e usinas. Classe dominante parasitária, abarrotada de dinheiro fictício oriundo da especulação financeira e da jogatina nos mercados de ações. Enfim, classe dominante que em nada honra o Brasil e seu povo trabalhador, honesto, explorado, mas altivo.

Repudio energicamente esses representantes do poder judiciário e dos meios de comunicação, a serviço dos neofascistas disfarçados de democratas e enganosamente falando em defesa do Estado de Direito na tentativa de criminalizar o MST. Esses representam o autoritarismo, os poderosos, os que querem a manutenção da opressão e da injustiça social.

Vejam a quem serve o poder judiciário brasileiro - a instituição mais anti-democrática desse país; que de fato só observa a Lei quando é contra os pobres, os desvalidos, os indefesos. Os verdadeiros criminosos contra o povo, contra o patrimônio brasileiro e contra o Brasil estão impunes, por um poder judiciário que para esses é dócil, lento e ordinário. E a quem serve esses meios de comunicação de massa senão a esses setores neofascistas que vêm em onda no Brasil? Que entram nos lares brasileiros diariamente dizendo suas mentiras e espalhando a ideologia dos dominantes, dos exploradores. A ideologia do individualismo, do consumismo, da alienação.

Atacar o MST é atacar a esperança num tempo melhor.

Gostaria de falar sobre a experiência no curso de história para os Movimentos Sociais do Campo. E certamente falo em nome dos professores desse bravo Departamento de História que aprovou, por unanimidade, a segunda turma de História para os Movimentos Sociais do Campo, já em andamento.

No nosso curso de História tivemos os estudantes mais dedicados e esforçados da UFPB. Alcançaram um Coeficiente de Rendimento Escolar Médio de 8,65. Bastante superior aos dos nossos alunos de História do curso extensivo, que souberam acolher e apoiar a experiência magistral que desenvolvemos nesta Universidade e que mantém o curso de História da UFPB entre os dez melhores do Brasil. O índice de desistência do curso para os movimentos sociais do campo foi de apenas 3,2%. Dez vezes menos do que o índice médio da universidade. As monografias apresentadas pelos graduados em História oriundos dos Movimentos Sociais do Campo, particularmente do MST, foram destaque nessa universidade. Algumas estão para ser publicadas por editoras internacionais. Muitos desses alunos/militantes foram aprovados em concursos Brasil afora e em programas de mestrados.

A convivência com os militantes do MST nos orgulha, orgulha a UFPB e a todos que com eles socializam essa experiência. O espírito de solidariedade deles contagiou a muitos dos que com eles partilharam os estudos acadêmicos e as ações políticas na Universidade. Aos que com eles participaram das jornadas nos fins de semanas voluntários, quando realizavam limpeza no quarteirão onde estavam alojados. Quando decidiram colaborar com as colônias de pescadores da Praia da Penha, consertando barcos, redes e outros apetrechos da pescaria, quando resolveram fazer, semestralmente, mutirões de doação de sangue para o Hemocentro da Paraíba, como uma espécie de retribuição carinhosa à Paraíba pela recepção calorosa do nosso Estado a esses educandos/militante s oriundos de 23 estados brasileiros onde o MST se organiza.

Por isso não só apoio o MST, como sinto-me honrado de trabalhar com esse Movimento. Conclamo aos que lerem esse meu desabafo e concordarem com ele a cerrarem fileira numa grande mobilização internética e/ou de rua em apoio ao MST. O momento é crucial, pois em época de crise a direita mostra suas armas contra o povo e suas organizações. Revivemos momento de ameaça a vida democrática brasileira. Por isso é hora dos que defendem a democracia erguer os punhos unidos contra o avanço do autoritarismo e do golpismo. A direita quer acuar o Governo Lula em seu viés democrático, progressista.

Não podemos ficar indiferente.

Lembrando Bertold Brecht

A indiferença

Primeiro, levaram os comunistas,

mas eu não me importei

porque não era nada comigo.

Em seguida, levaram alguns operários

mas, a mim não me afetou

porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas

mas, eu não me incomodei

porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez

de alguns padres mas,

como nunca fui religioso,

também não liguei.

Agora, levaram-me a mim

e, quando me apercebi,

já era tarde.
Joao Pessoa, UFPB, dia 3 de março de 2009.

O que vc pensa sobre isso (!)?

22 fevereiro, 2009

Angustia


`... desejo a voces, cientes do seu papel de agentes transformadores neste mundo mas que preferem se resignar ao conforto do determinismo, que o sentimento de angustia e de culpa sejam para sempre o forro de seus travesseiros. Amem.`

13 fevereiro, 2009

Dica...

-Dificuldade em encontrar o título desejado?
-O autor que você gosta de ler está em lingua estrangeira e, por isso, o livro é dificilmente encontrado no país?
-Os preços dos livros estão nas alturas?
-É muito empenho pra achar um livro que valha a pena?
-O livro é pesado e dificil de ser manejado?
-A crise mundial pegou pesado no seu bolso?


Essa dica é pra você que consegue arrumar qualquer desculpa para justificar a falta de leitura.


Bom, a dica é o seguinte. São alguns sítios da internet em que você pode fazer donwload gratuito de divesos livros, manuais, textos e por aí vai. Todos em formato e-book e gratuitos.
É lógico que ainda temos a desculpa:
-Pô, mas em formato e-book eu vou ter que ler na frente do computador!! E aí tenho dois problemas - 1. me canso rápido na frente do computador e 2. não posso ficar no computador tanto tempo.
Porêm, você pode imprimir o livro a um preço bem mais aceitável que o preço do livro nas pratileiras. E isso já um grande incentivo para quem quer ler!


Quem tiver mais dicas, compartilhe conosco.


Os sítios são:

http://www.eduquenet.net/ebooks.htm
Sítio com divesos links para outros sítios que disponibilizam e-books gratuitos

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp
Sítio gerido pelo governo brasileiro que disponibiliza diversas obras clássicas, nacionais ou internacionais. Também tem vídeos e músicas.

http://www.aprendaki.com.br/livros.asp
Quase o mesmo acervo do sítio do domíniopúblico.

http://www.carlosromero.com.br/2008/07/textos-e-livros-gratuitos-para-praticar.html
O autor desse sítio organizou diversos sítios que ajudam as pessoas que desejam falar inglês à encontrar textos, leivros e vídeos na lingua estrangeira. Acho que é o sítio que melhor aglutinou todos os possíveis destinos virtuais de quem procurar um texto em inglês.

http://www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php/
Sítio da Universidade de São Paulo. Contêm textos, livros, sons e vídeos.

http://www.4shared.com/network/search.jsp?searchmode=3&searchExtention=category%3A5
Sítio muito bom. Aqui dá para achar de tudo. De livros científicos à apresentações em power point.


Como diria "coletivo sabotagem".
Conhecimento não se compra, se toma!

O texto abaixo foi retirado do sítio http://membres.lycos.fr/sabotagem/venus/sitio.php3

Na dita "sociedade da informação" o bem mais precioso, como o próprio nome já diz, é a informação. Rumores fazem despencar bolsas, uma informação mal contada levar países a bancarrota, segredos privilegiados transformar um vendedor de cachoro quente em um novo magnata. Os conhecedores dos poderes quase milagrosos da informação detém um monopólio cada vez maior desse bem precioso . O conhecimento que poderia ser usado na intenção de engrandecer o homem e promover uma melhor comprensão de si e das coisas à sua volta se transforma, ou se mantém, em um bem material qualquer sob a regência das flutuações do mercado. E as leis, que segundo dizem alguns, deveria proteger o cidadão e elevar a todos e um nível de igualdade, misteriosamente se moldam a partir dos interesses desses comerciantes de informação.

Os homens que agora restringem o conhecimento protegidos por leis absurdas se esquecem que eles próprios se aproveitam do conhecimento deixado por gerações passadas que tiverem uma visão um pouco além de seu umbigo e em certo momento de suas vidas provavelmente imaginaram que suas idéias poderiam beneficiar a gerações futuras de um modo geral, e não uma pequena camada que pode pagar. Neste contexto esse grupo de bravos tomados de grande furor e espírito desbravador jogou sua nau na rede e hasteou a bandeira negra para terror e desespero do império. A distribuição de livros de forma gratuíta mais do que a simples violação de leis que consideramos injustas é acreditar que através do conhecimento, cultura e arte podemos buscar ser algo melhor, é não temer o futuro e acima de tudo teimar em ter esperança no homem.

30 janeiro, 2009

NÃO SE ADMITE por Michel da Silva

Segundona. Sete e meia da manhã. Praça Ramos de Azevedo e um envelope com cinco currículos de baixo do braço. Tudo pra tentar sair da fila do desemprego. A fila de um prédio em frente da Galeria 24 de maio me pareceu convidativa. As vitrines me instigaram: “Quando ganhar meu primeiro pagamento vou comprar um tênis”. Mas primeiro um trampo. Então deixa pra lá o pensamento alheio.Achei um jornal. Dei uma folheada pra não pesar na consciência e li o seguinte anúncio:“CURSO PROFISSIONALIZANTE PARA OFFICE-BOY”.

Amassei e joguei no lixo. Me lembrei do tempo que eu trampava de office-boy, detalhe: sem fazer curso nenhum. Trombava outros manos nos bancos e fliperamas da vida. Era muita idéia, tiração de sarro, uns rolês. Nosso lema era:“A gente ganha pouco, mas se diverte!”Naquela época eu concordava.No prédio o que mais tinha era agência, e o que menos tinha era emprego.Primeira sala: Mais uma filinha básica. Chegou a minha vez, a moça do balcão me olhou e disse:
- Aqui não pega currículo! Só faz cadastro!
- Tá bom! Posso fazer?
- É um real pra fazer o cadastro... Você vai ser visto por diversas empre...
Antes dela terminar, dei às costas.Segunda sala, no andar de cima: Sem fila. Resolvi entrar. Tirei um currículo do envelope e esperei. Um cara, quando me viu chegar, entrou numa sala fechada. A moça, que estava sentada, fingiu que não me viu. Chamei a atenção dela:

- Por favor...Recebi na lata.
- Pra deixar currículo é cinqüenta centavos, moço!
Balancei a cabeça e fui embora.Caramba! Eu já vi situação em que você paga pra trabalhar, mas pra procurar?Fui embora. Na descida, vi dois manos comentando:

- Que sacanagem! Pagar pra arrumar emprego!
O outro foi além:
- Já ouvi falar que mesmo as agências que não cobram, só pegam currículo pra juntar uma cota boa e vender o papel, vai vendo!

Não agüentei, dei risada da conspiração.Firmeza!
Fui a outro prédio na Barão de Itapetininga. Segui a indicação da placa, sobre o corpo de um senhor na rua. O outdoor humano anunciava 50 vagas para operador de telemarketing, inicio imediato. Me olho brilhou e corri pro endereço.Terceira sala: Mais fila. Na hora que fui atendido a menina do balcão olhou meu currículo e perguntou:

- Você tem experiência em carteira?
- Não, mas trabalhei pra uma cooperativa. Era de operador também.
- Olha moço, pras vagas correspondentes, só estamos aceitando currículo de quem tem experiência. – Eu olhava pra ela e seu rosto parecia se derreter no mesmo ritmo da voz.Tentei manguear na rua de novo . Parei na banca de jornal para olhar as manchetes. Futebol meu time perdeu. Mega Sena acumulou. Greve do metrô. Corrupção na política. Caos nos aeroportos! Sem novidade. Queria mais que tudo explodisse! Pique Bin Landen!

Mirei uma agência na Sete de abril.Quarta sala: Até que enfim a chama reascendeu. A moça do balcão mó atenciosa, leu meu currículo, disse que eu tinha perfil pra vaga. Nem precisei esperar muito. Já fui pra entrevista.
“Agora vai virar” – pensei.
Na salinha fui atendido por um outro cara.
- Bom dia, Paulo! – falou olhando pra minha ficha
- Bom dia
- Então, nos aprovamos seu currículo! Você foi selecionado pra fazer um treinamento de trinta dias e após o treinamento você inicia na empresa. Ok?
- Tudo bem!?
Ele continuou com um sorriso largo:
- No final desses trinta dias você vai receber um certificado de conclusão do curso. O único custo é o material didático, 150 reais. Mas a vantagem é que você já está com a sua vaga garantida e mesmo que você não fique na nossa empresa, você vai ter um diploma de operador de telemarketing. O curso inicia amanhã, posso confirmar seu nome?

26 janeiro, 2009

Palavrões - Millor Fernandes

Lendo o texto do Daniel (post anterior a esse) me lembrei de um escritor brasileiro de considerada fama. Esse é Millor Fernandes, atual colaborador da revista Veja.

Com o interesse de despertar a curiosidade do Daniel para esse autor, me empenhei na procura de um blog ou um sítio que dissesse algum coisa sobre Millor ou que disponibilizasse textos periódiocos do mesmo.

Por fim, minha busca se encerrou no espaço do sitio da UOL, sitio em que o Millor escreve periodicamente (http://www2.uol.com.br/millor). Além dele, é lógico, encontrei outros diversos sitios que publicam e publicaram trabalhos do Millor.

Em um deles, http://rededoblog.blogspot.com/2008/09/palavres-por-millor-fernandes.html, encontrei um texto sobre "palavrões" que me fez rir bastante(posto ele abaixo).

-----------------------

Breve histórico de Millor (encontrado no Wikipédia)

Nasceu Milton Viola Fernandes, tendo sido registrado, graças a uma caligrafia duvidosa, como Millôr, o que veio a saber adolescente. Aos dez anos de idade vende o primeiro desenho para a publicação O Jornal do Rio de Janeiro. Recebe dez mil réis por ele. Em 1938 começa a trabalhar como repaginador, factótum e contínuo no semanário O Cruzeiro. No mesmo ano ganha um concurso de contos na revista A Cigarra (sob o pseudônimo de "Notlim"). Assumiria a direção da publicação algum tempo depois, onde também publicaria a seção "Poste Escrito", agora assinada por "Vão Gogo".

Em 1941 volta a colaborar com a revista O Cruzeiro, continuando a assinar como "Vão Gogo" na coluna "Pif-Paf". A partir daí passa a conciliar as profissões de escritor, tradutor (auto-didata) e autor de teatro.

Já em 1956 divide a primeira colocação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires com o desenhista norte-americano Saul Steinberg, e em 1957 ganha uma exposição individual de suas obras no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Dispensa o pseudônimo "Vão Gogo" em 1962, passando a assinar "Millôr" em seus textos n'O Cruzeiro. Deixa a revista no ano seguinte, por conta da polêmica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica.

Em 1964 passa a colaborar com o jornal português Diário Popular. Em 1968 começa a trabalhar na revista Veja, e em 1969 torna-se um dos fundadores do jornal O Pasquim.

Nos anos seguintes escreveria peças de teatro, textos de humor e poesia, além de voltar a expor no Museu de Arte Moderna do Rio. Traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams.

Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retorna à Veja em setembro de 2004.

--------------------

Millor Fernardes - Palavrões

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. "Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!". E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!". Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala.

Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas.Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade. E...foda-se!"

24 janeiro, 2009

A TRETA DA MODERNIDADE

Segue aqui o relato de Sandro Barbosa do Nascimento, um ex-menino de rua que sobreviveu ao massacre da Candelaria (mas nao ao onibus 174) e que acompanhou de perto todo o conflito e disputa que marcou, e marca, essa nossa era que se diz moderna.
`Ate um pouco antes da tal revolucao industrial, Deus criador dominava a terra. Dentre as coisas que Ele criou estava o homem. Este, vaidoso e desejoso de poder passou a querer tambem criar. Os homens desejavam criar uma referencia de homem que pudesse tomar o lugar de prestigio que Deus ocupava. Sua primeira tentativa foi Frankenstein. Mas a pouca experiencia que os homens tinham na arte da criacao fez com que sua primeira tentativa de referencial humano, Frankenstein, nao saisse com uma cara la muito boa.
Depois disso, alguns alemaes tentaram novamente desafiar a soberania de Deus. Dentre eles estava um tal de Friedrich Nietzsche. Nietzsche passou a nao botar muita fe em Deus e passou a desenvolver a ideia da criacao do Super Homem. Boatos que Nietsh tinha matado Deus e criado o Super Homem comecaram a se espalhar. Os agentes infiltrados da CIA, sabendo disso, roubaram o projeto do alemao e fizeram algumas pequenas alteracoes, como a mudanca da cor da roupa, deste tal Super Homem, para vermelho, azul e branco. Apartir dai o tal Super Homem passou a salvar os homens no lugar de Deus.
Indignados com o roubo do projeto de Nietzsche, alguns de seus amigos e discipulos alemaes comecaram a tecer criticas a este tal Super Homem Americano. Um tal frances, de nome Michel Foucault, motivado pelas reclamacoes deste grupo de alemaes resolveu matar o tal Super Homem. Nao que ele gostasse de Deus e quisesse devolver o poder a Este, mas e que ele nao gostava mesmo era do tal Super Homem. Com uma pequena ajuda dos alemaes reclamoes la da cidade das Mercedes, Frankfurt, que disseram que a contradicao estaria dentro do proprio inimigo, Foucault foi ate a nave que o tal Super Homem chegou aqui na terra e pegou a tal da criptonita. Foucault enfiou a criptonita na cara do Super Homem que, sem moral, voltou para Washington. Entao, boatos que Foucault tinha matado o Super Homem comecaram a se espalhar.
Assim, Deus aparece de volta. Mas bem antes que Deus pudesse usufruir de sua volta triunfal a administracao dos negocios terrenos, Washington, tirando o azul da roupa do Super Homem e pondo barba e barriga falsa, enviam este de volta ao combate, agora com o pseudonimo de Papai Noel.
Desta vez, bancado pela Coca Cola e muito mais forte, o Super Homem (agora Papai Noel) tira Deus de vez do seu trono e lhe toma tudo, ate mesmo sua data de aniversario.
No final das contas, a `bomba` criada na disputa entre americanos e alemanhas, com uma pitada de intriga francesa, e logico, acaba estourando nas maos dos palestinos da Faixa de Gaza. Estes que nao tinham nada a ver com a coisa, acabaram pagando o pato. Tambem Deus nao se deu por vencido. Este prometeu voltar, mas a maioria da dos palestinos la da Faixa de Gaza botam fe em um outro Deus, e nao neste Deus que prometeu voltar.`


Por mim mesmo.

19 janeiro, 2009

Poeta GOG

Vale a pena ouvir essa música/poema

Brasil com P (GOG e Maria Rita)

16 janeiro, 2009

Debate em pauta


E aí pessoal.

Vai aí um convite para todos aquele interessados em debater preconceito linguístico e suas consequências. O debate está sendo realizado no sítio Elo da Corrente - http://www.elo-da-corrente.blogspot.com/

Todos estão convidados a chegar.

Sejam bem vindos!

12 janeiro, 2009

Vídeo critica a sociedade

O Clipe abaixo, feito pelo grupo americano flobots, mostra uma crítica a sociedade da ditadura do consumo.
O Clipe faz uma alusão, no meu ponto de vista, a liberdade individual que temos quando estamos mais próximos a natureza. Essa proximidade está no fato de respeitarmos os limites naturais do ser humano, para que possamos tomar atitudes humanas frente as questões da vida. Na momento em que "apertos de botão" mudam as trajetórias de nossa história, as razões de existência humana também são modificadas.
O clipe cita celular, super construções, controle remoto, carros, motores, grandes negócios, meios de comunicação em massa e por aí vai, como formas de controle sobre a vida do ser humano ou, a deshumanização humana.
Em contra partida à esse sentimento, o clipe cita o sentimentos de ser uma pessoas sozinha, na rua, por ela mesma, sentindo-se livre, como quando estamos em uma bicicleta e soltamos as mãos ao ar.


09 janeiro, 2009

Israel

Para quem não sabe, o escritor português José Saramago tem um blog agora.
O único escritor de lingua portuguesa que já ganhou um prêmio nobel por seu trabalho tem um blog onde expressa suas idéias e suas inspirações. Para aqueles q forem tocados pelo interesse de ler as palavras de Saramago, aí vai o blog - http://caderno.josesaramago.org/
Entre os diversos textos escritos pelo autor, selecionei um que realmente nos toca nesse momento de crise mundial, com os ataques de Israel a faixa de Gaza, ao Hamas e aos palestinos.
O texto expressa a condição confortável em que Israel se encontra no momento em que pratica seus ataques. Ignorado, ou apoiado, pelas grandes potências mundial, (EUA e França) o massacre, ou limpeza etnica, realizado na faixa de gaza deve ser publicado e divulgado como mais uma injustiça da humanidade. Injustiça que, mesmo na figura especial de Barack Obama, não encontra nenhum resistência.
Mortos e mais mortos. Uma pilha deles. Em todos os lugares, de todas as formas.
São mais de 750 pessoas até agora. Isso de acordo com os dados oficiais.
Essa chacina deve ser denunciada. Como toda chacina!
Acho que Saramago, como fabuloso escritor que é, faz isso de uma forma muito mais clara e simple que eu. Abaixo estão suas palavras.

José Saramago - Israel http://caderno.josesaramago.org/2008/12/31/israel/

Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.

Raça em Cuba - Carta aberta de Carlos Moore ao presidente de Cuba

Buscando informações pela internet, lendos livros específicos, periódicos ou qualquer informativo que tenha alcance mundial, podemos observar e concluir que existem coisas comuns em todos os grupos sociais pelo mundo.
Entre esses "pontos comuns", um muito específico, e bem geral, é a questão da raça.
Quase todos os países ao redor do mundo tem raças diferentes de seres humanos vivendo no mesmo espaço. Coisa normal e cotidiana.
Entre esses países, existem aqueles que admitem discriminação racial e os que a negam. A diferença entre eles é meramente prática. Os países que alegam haver discriminação racial em seu terrítório, ou no meio de sua população, adotam medidas práticas para solucionar o problema. Em geral são medidas de ordem política que tendem a diminuir e/ou solucionar os conflitos inter-raciais.
Por outro lado, os paises que negam a existência dos problemas de ordem racial em seu terrítório não tomam nenhum tipo de ação transformadora. Aceitam o status quo em que se encontram.
O Brasil, está no primeiro grupo. Admite conflitos inter-raciais internos. Principalmente após o início do governo Lula. É um país que consegue enxergar suas deficiencias e está ciente de suas necessidades de mudança.
Um exemplo dos países que negam a existencia de conflito inter-racial é Cuba. Um país socialista que vive sobre a sonbra da democratização eleitoral. Desde a instituição do governo socialista ainda não foram criados pontos políticos para regulamentação da desigualdade desse país mais negro do que branco.
Um dos guerreirons na luta em abrir os olhos cubanos aos seus problemas inter-raciais é o intelectual exilado Carlos Moore.
Moore é exilado no Brasil e endereçou uma carta à Raúl Castro Ruz. Carta onde o exilado pede ao líder cubano serenidade na avaliação dos conflitos inter-raciais e mudanças imediatas na condução das políticas do país no que tange a questão.
Segue abaixo a carta de Carlos Moore e a introdução escrita por Nelson Maca.

Devo esse link com Carlos Moore ao blog do meu chegado Michel - Elo da corrente - http://elo-da-corrente.blogspot.com/
E ao blog do Nelson Maka - Gramática da ira - http://www.gramaticadaira.blogspot.com/

Carlos Moore escreve carta aberta ao Presidente de Cuba


Caros Amigo, Amigas, Parceiros e Parceiras, Ativistas e Jornalistas,

invoco-os a participar criticamente do debate deste importante capítulo da Grande Política que se inaugura no continente americano com a eleição de Barack Obama e os desdobramentos continentais de sua vitória.

Destaco, aqui, mais especificamente, o embargo histórico que os EUA promove contra Cuba. Mas falo, principalmente, do embargo histórico interno que o sistema revolucionário cubano promove contra parcela de seu povo: nós, os negros.

No momento em que governos de estado e lideranças política e culturais do continente encontram-se em Salvador, para uma reunião que defende rumos da vida na América Latina, aproveitamos, para ecoar a voz do ativista cubano exilado Carlos Moore sobre a complicada e ainda insolúvel questão negra em seu país de origem.

Por isso venho solicitar a todos que se sentirem sensibilizados que nos ajudem, neste momento tão oportuno, a potencializar este debate, publicando e divulgando a Carta Aberta ao Presidente de Cuba de Carlos Moore em todos os meios possíveis: listas, blogs, sites, jornais, etc.

Tenha certeza que esta é também a nossa luta!

África! One People! OneLove!

Nelson Maca – Blackitude.Ba

.......................................................


Carta Aberta ao Presidente de Cuba

por: Carlos Moore



Salvador, Bahia, 17 de Dezembro de 2008

Sua Excelência General de Exército Raúl Castro Ruz
Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros
Conferência de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e do Caribe,
Costa do Sauípe, Bahia, Brasil


Senhor presidente,

Se me dirijo a V. Ex.ª por meio desta Carta Aberta é porque essa é a única forma que tenho de chegar diretamente a V. Ex.ª, e também porque quero que meus concidadãos e todos aqueles que no mundo se interessam pelos problemas vitais de nossa época, se inteirem do que aqui exponho.

Tanto V. Ex.ª, descendente de europeus nascidos na Espanha, como eu, descendente de africanos nascidos no Caribe, somos Cubanos, mas esse fato não nos confere nenhum privilégio específico como humanos, a não ser o direito de ter uma voz nos destinos do país em que
nascemos. Uso desse direito sem apologia.

Sei que um mundo de divergências separam nossas respectivas concepções sobre a vida, as relações sociais, a maneira de conduzir os destinos de nosso país e, enfim, a interpretação daquelas realidades que impactam a vida cotidiana dos cubanos de maneira negativa. Mas, V. Ex.ª, como mandatário de nosso país, e eu como cidadão desse mesmo país, temos em comum o fato de que, sejam quais forem nossas divergências, compartilhamos a responsabilidade de transformar nosso presente social, assim como a responsabilidade de modelar nosso futuro coletivo como nação. Da ação ou inação de cada cubano, seja qual for sua condição social, gênero, raça, orientação sexual, ou convicção política, dependerá o porvir de todos.

Sempre apoiei e respeitei a soberania nacional e, por isso, sempre me opus a qualquer medida, seja o embargo econômico ou as ameaças contra o território nacional, que puderam colocar a independência de Cuba em perigo ou lesar os interesses de sua população. Mas também, e pelas mesmas razões, sempre advoguei pelo direito inalienável do povo de Cuba, ou de qualquer povo, a dirigir seu próprio destino mediante instituições representativas e com dirigentes que sejam eleitos em campanhas livres e verdadeiramente democráticas; isto é, em eleições onde estão colocadas diferentes idéias representadas por movimentos e partidos organizados, com plataformas políticas e propostas sociais realmente independentes e diferentes. Estimo que, só assim, pode um povo exercer seu direito de optar pelo que melhor lhe convenha. Portanto, sou inimigo de qualquer ditadura ou sistema totalitário, seja da chamada direita ou da denominada esquerda, e não compartilho da opinião de que a democracia seja um luxo reservado aos burgueses.

Não vou fazer rodeios para manifestar a V. Ex.ª minha sólida convicção de que o racismo, fenômeno que impera em nosso país e que cada vez cobra novos espaços na vida política, econômica e cultural da nação, é o maior, mais grave e mais tenaz problema que confronta a sociedade cubana.

Se deixarmos de lado os discursos grandiloquentes, mas vazios, e as declarações contundentes, mas enganadoras, sobre a suposta supressão do racismo e da discriminação racial em Cuba, aparecerá diante de nossos olhos um mundo concreto de desigualdades e iniquidades sócio-raciais que foram estruturadas por séculos e séculos de opressão racial e de ódio contra a raça negra. Esse foi o mundo que concretamente herdou a Revolução que chegou ao poder em 1959, mas que os dirigentes desta última se mostraram incapazes de interpretar corretamente, por serem homens e mulheres procedentes, como eram, das classes médias brancas que sempre dominaram o país e monopolizaram sua direção política e econômica.

A hegemonia branca, com seu concomitante racismo, é uma realidade histórica que o governo revolucionário, longe de destruir, contribuiu para solidificar e estender quando declarou a inexistência do racismo, o fim da discriminação racial e o advento de uma sociedade de “democracia pós-racial” socialista. Isso significa que tanto os dirigentes da Revolução que tantas transformações sociais benéficas trouxeram para nosso país, como o povo que lhes deu seu apoio ao processo revolucionário, eram reféns do mesmo passado brutal nascido do ventre da escravidão racial que impuseram os europeus nestas terras americanas. Desse ventre monstruoso surgiu uma sociedade racista. Por tanto, Cuba é hoje um país que fala com duas vozes totalmente distintas, uma branca e outra negra, ainda que, às vezes, essas tenham se fundido, temporariamente, em momentos específicos de nossa história comum.

Senhor presidente,

É um fato sabido que a Cuba socialista foi o único país no mundo que proclamou, publicamente, que havia eliminado o racismo e a discriminação racial, e que havia empoderado a população negra. Consequentemente, o governo revolucionário reprimiu, perseguiu e forçou ao exílio todos aqueles negros, intelectuais ou trabalhadores, que sustentaram o contrário. Para esses últimos, foram reservados os campos de trabalho forçado, as prisões, o manicômio ou o exílio. Eles foram tidos como “racistas ao contrário”, “racistas negros”, “contra-revolucionários”, “agentes do imperialismo”, e até como “instrumentos da CIA”.

Grandes pensadores negros, como o Dr. Juan René Betancourt Bencomo ou o professor Waltério Carbonell, pagaram um preço muito alto por haverem se levantado contra a doutrina racial que foi erigida em política de Estado durante cinco décadas e que consistiu em negar a existência da opressão racial e do racismo em Cuba sob a Revolução. É por essa razão que hoje os olhos do mundo se voltam cada vez mais para nossa suposta “democracia pós-racial” para saber por que o regime revolucionário destruiu aqueles que se negaram a conviver com essa Grande Mentira.

Cuba é um país onde uma revolução conseguiu derrubar os velhos privilégios de uma oligarquia republicana corrupta e submissa ao estrangeiro, mas onde, até o dia de hoje, a população de raça negra, majoritária no país, está confinada a jogar um papel de subalternidade. As honrosas exceções negras que ascendem à cúpula do poder o fazem unicamente com o beneplácito da elite dominante, predominantemente de origem européia, e confirmam assim a realidade, também dominante, baseada na subalternidade da raça negra em Cuba, depois de meio século de revolução socialista. Essa é a realidade. E negá-la seria persistir na Grande Mentira.

O racismo é a última fronteira do ódio entre humanos, precisamente porque raça é a mais profunda e duradoura linha divisória que determina quem tem acesso privilegiado e protegido aos recursos da sociedade, e a quem é vedada qualquer oportunidade de usufruto desses mesmos recursos. O racismo é uma estrutura de distribuição diferenciada, racialmente seletiva, dos recursos da sociedade e do planeta, que se perpetua através do monopólio do poder político. Portanto, trata-se de um modus operandi permanente, não de uma aberração; de uma estrutura de poder total que funciona maravilhosamente bem para garantir a permanência do domínio de uma raça especifica em detrimento das outras, e não um mero reflexo das simpatias e antipatias que surgem do jogo interpessoal.

A maioria dos dirigentes cubanos, revolucionários e marxistas, é branca num país onde a maioria da população é negra. Qual seria a razão para isso? E porque razão o racismo persiste e se expande constantemente, abarcando cada vez mais espaços da sociedade cubana, e impregnando as estruturas mentais individuais e coletivas em Cuba? O poder é branco em Cuba, e a discriminação racial contra os negros cubanos se mostra cada vez com mais força, unicamente por causa do racismo. O racismo se reforça constantemente, não somente em Cuba, mas em todos os países, precisamente pela mesma razão: porque funciona positivamente para aqueles que, em função de sua raça, se beneficiam do acesso racialmente seletivo aos recursos da sociedade. Se não fosse assim, o racismo teria desaparecido há milhares de anos, como desapareceram tantas realidades que surgiram da imaginação criativa do ser humano.

Senhor presidente,

O objetivo desta carta é contribuir com o debate que está sendo levado a cabo em nosso país sobre o rumo que haverá de tomar a nação num momento crucial de sua existência; momento que deverá enfrentar os desafios do novo milênio com políticas novas e verdadeiramente inovadoras que resolvam os problemas que atingem nossa sociedade. Com esse objetivo, quero propor a V. Ex.ª um conjunto de medidas mínimas que me parecem necessárias para começar o processo que nos leve, posteriormente, todos os cubanos anti-racistas e nacionalistas, a desafiar e superar a herança do passado. Esse passado se manifesta hoje nas desigualdades raciais que debilitam a unidade nacional, particularmente em momentos em que Cuba tem a possibilidade, pela primeira vez em cinquenta anos, de resolver seu litígio com os Estados Unidos de maneira pacífica.

Mas seria hipócrita e imoral pedir o cessar do embargo/bloqueio que os Estados Unidos injustamente impuseram a Cuba, sem que os dirigentes de Cuba se comprometam, também, a levantar o embargo/bloqueio que o regime revolucionário impôs à população majoritária do país desde o início da Revolução. Ambos os embargos/bloqueios devem ser levantados, simultaneamente, sem pré-condições de nenhum dos dois lados. E, por meio desta carta, quero contribuir para que nosso país, atualmente sob seu comando, encontre a melhor maneira de alcançar esse objetivo em meio a um consenso formado na unidade nacional. .

Concretamente, sugiro, como um primeiro passo, que seu governo tome, sem demora, as seguintes medidas:

· Estabelecimento de um estado social de direito como pré-condição do exercício democrático da cidadania cubana; prescrição de todas as práticas discriminatórias, sejam de natureza política, de gênero, de raça, de orientação sexual ou de confissão religiosa; libertação de todos os presos políticos em Cuba e dos presos de consciência.

· Extinção da proibição que foi colocada judicialmente contra as “Sociedades de Cor”, instituições históricas que formam parte do patrimônio cultural dos negros cubanos e que são indispensáveis como esferas diferenciadas de organização da raça negra em Cuba; restauração do direito de existência e de organização dessas Sociedades, conforme a existência em Cuba de organizações do mesmo tipo a favor de outras etnias (tais como, as organizações de cubanos de origem chinesa, basco, galego, hebreu, árabe); autorização de qualquer organização propriamente negra (cultural, social, desportiva, estudantil, política ou artística) cuja finalidade seja a luta contra o racismo e a discriminação racial.

· Reabilitação de todas as figuras históricas e pensadores negros proscritos e/ou silenciados ao longo da história de Cuba, antes e depois da Revolução, assim como a publicação das obras de militantes negros que lutaram pelo fim do racismo e da discriminação racial (Rafael Serra, Evaristo Estenoz, Pedro Ivonnet, Ramón Vasconcelos, Gustavo Urrutia, Juan René Betancourt Bencomo, Walterio Carbonell ….).

· Condenação oficial do genocídio perpetrado pelo Estado cubano em 1912, contra a população negra, fato que, até hoje, o Estado não reconheceu de maneira oficial; reabilitação do programa político do Partido Independente de Cor (PIC) e de seus lideres históricos (Evaristo Estenoz, Pedro Ivonnet e outros), visando o restabelecimento da memória histórica nacional.

· Autorização para a criação de um organismo nacional autônomo de Negros Cubanos, na forma de uma Fundação Nacional para Fomento do Desenvolvimento Econômico da População Negra (FUNAFEN), para atender aos graves problemas sócio-econômicos que enfrenta a população negra e com atribuições para obter fundos de caráter nacional e internacional para melhorar as condições de vida nos bairros mais pobres; criar novos programas específicos para a capacitação profissional de jovens afro-cubanos que os prepare para as demandas da economia nacional e global.

· Adoção, por parte do Estado, de novas medidas com relação às remessas que seus cidadãos recebem do exterior (e estimadas em 1.5 bilhões de dólares por ano, dos quais menos de 15% chegam às mãos da população negra); adoção de uma carga impositiva sobre essas remessas, que deveria estabelecer 10% ao invés dos 20% atuais; e o 50% deste último imposto, recolhido pelo governo, deverá ser incorporado automaticamente à FUNACEN, atendendo ao fato de que as remessas do exterior favorecem o incremento vertiginoso das desigualdades raciais em Cuba.

· Autorização para a convocação, por organizações autônomas dentro de Cuba, e sem interferência dos órgãos do poder, de um Congresso Nacional sobre o Racismo e a Discriminação Racial; autorização para que intelectuais e militantes Afro-cubanos independentes, residentes em Cuba, possam participar de uma Mesa Redonda de Nacionalistas Cubanos do interior e da Diáspora, com a finalidade de discutir estratégias de combate ao racismo em Cuba.

· Autorização para a criação de um Observatório Nacional para monitorar a situação racial em Cuba e trabalhar a favor da eliminação das práticas racialmente discriminatórias de qualquer tipo, seja no domínio público como no privado.

· Adoção de medidas e políticas concretas que dignifiquem e façam respeitar o fenótipo associado à raça negra e que é objeto em Cuba de rejeição e de ridicularização, especialmente no caso da mulher negra; projeção positiva do fenótipo do afro-cubano em todos os meios de comunicação de massa, manifestações culturais e formas de representações artísticas, com o fim de combater o escárnio racista dirigido maciçamente às características raciais da população de herança africana (nariz, lábios, cor, cabelo crespo, morfologia…).

· Criminalização formal do racismo e da discriminação racial em todas as esferas da vida nacional sem direito a fiança, conforme já existe no Brasil (Lei Caó); proposta à Assembléia Nacional de novas legislações especificamente designadas para punir qualquer tipo de manifestação de discriminação ou humilhação racial na esfera pública ou privada.

· Reconhecimento pleno da mulher negra cubana como protagonista extraordinária da dignidade nacional, mas que sofreu e continua sofrendo duplamente a discriminação; lançamento de uma campanha nacional em prol da revalorização do fenótipo específico da mulher afro-cubana; autorização para a criação de uma Organização de Mulheres Afro-cubanas, totalmente independente da Federação de Mulheres Cubanas (FMC) e com capacidade para buscar financiamento externo.

· Reconhecimento da existência de maiorias orgânicas no país, atendendo principalmente aos parâmetros de sexo e raça, que deverão refletir equitativamente em todos os órgãos de decisão política, econômica e cultural, considerando que mais de 60% da população cubana atual é de origem africana; estabelecimento de um mecanismo de representatividade progressiva que garanta a presença efetiva da população Afro-cubana em todos os níveis e em todas as instâncias do país, e que, para começar, deverá alcançar nos próximos cinco anos 35% das posições-chave do Partido, do Governo, do Parlamento, das Organizações Populares, da direção das Forças Armadas e do Ministério do Interior, dos meios de difusão de massa (em especial o cinema e a televisão), da indústria turística, e das empresas mistas criadas com capital estrangeiro.

· Reconhecimento oficial e respeito efetivo das religiões Afro-cubanas, em pé de igualdade com as demais religiões em Cuba, mediante a instauração de um mecanismo de diálogo permanente da direção política do país com as referidas religiões, como se fez com as religiões cristãs, conferindo-as, assim, o lugar que legitimamente lhe é de direito, e que impulsionaria o processo de consolidação da identidade nacional e cultural; interrupção imediata de todas as práticas oficiais ou extra-oficiais que resultem na interferência, folclorização e exploração para fins turísticos das religiões de origem africana, adotando-se medidas penais adequadas que impeçam sua discriminação, como deve ser em um estado laico.

· Imposição de lei, em todos os níveis do sistema educativo, do ensino da História da África e dos povos de origem africana nas Américas, como já fez o Brasil (Lei 10639/03); publicação das obras de referência mundial que elucidam a história da África em todos os seus aspectos, e daquelas obras que evidenciam a história do próprio racismo; desenvolvimento dos estudos e pesquisas sobre a problemática afro-cubana na história e na sociedade, a fim de fortalecer a identidade nacional e levantar a auto-estima da pessoa negra; criação de disciplinas de estudos afro-cubanos nas universidades e de centros de estudos étnico-raciais extra-muros.

· Implementação de políticas públicas de ação afirmativa, como uma estratégia global capaz de conduzir a uma equiparação sócio-econômica daqueles cidadãos que, por causa de sua origem racial, sofrem desvantagens historicamente construídas, como consequência de serem descendentes das populações africanas que foram escravizadas em Cuba, e que, por tanto, seriam uma forma concreta de reparação moral para a população negra.

· Realização de um censo nacional baseado em parâmetros científicos modernos como base para avaliar a extensão das injustiças sociais que afetam desproporcionalmente a população Afro-cubana, e atendendo ao fato de que os resultados dos censos realizados nos últimos cinquenta anos merecem total desconfiança.

Senhor presidente,

Pessoalmente, estou convencido de que V. Ex.ª tem consciência da gravidade do momento e da pouca margem de manobra que teria qualquer dirigente em sua posição. Contudo, a seu favor, acorrem certas circunstâncias próprias que devem ser aproveitadas, se o objetivo é salvar as conquistas sociais que o povo de Cuba obteve através da Revolução de 1959. Considero como algo benéfico, para V. Ex.ª e para Cuba, precisamente, o fato de que V. Ex.ª não seja um líder carismático tradicional, o que lhe permite ser, em contrapartida, um dirigente realista e pragmático, capaz de reconhecer o perigo quando o vê.

Estou convencido de que os numerosos dispositivos de inteligência que V. Ex.ª tem sob seu comando, a grande quantidade de institutos de pesquisa social que o regime revolucionário criou ao longo das décadas para analisar a realidade social e tomar o pulso da população, proporcionou suficientes dados sociológicos, empíricos e abstratos, que permite concluir que algo novo está acontecendo na consciência coletiva da população negra majoritária e que esse “algo” não poderá ser satisfeito a não ser com um empoderamento efetivo, a partir de formas de organização legitimamente populares e surgidas de baixo.

Chegou o momento de mudar drasticamente, e num tempo mais rápido possível, a situação da população negra em Cuba, atendendo tanto à urgência que sentem aqueles que nunca tiveram o poder, e aos problemas gigantescos com os quais têm de se confrontar. Mudanças profundas devem ser feitas agora, sem qualquer pretextos ou estratégia de retardos, sem demora, para modificar de maneira radical, permanente e abrangente o panorama sócio-racial da sociedade cubana. Não há tempo a perder: cada minuto de espera é uma porta aberta a situações imprevistas e difíceis de serem controladas, na medida em que apareçam.

Seria perigoso continuar a pensar que “aos negros não interessa o poder”, e continuar postergando aquelas medidas sem as quais não pode acontecer o empoderamento verdadeiro da população que é maioria em Cuba. É por isso que nas mãos de V. Ex.ª está atualmente a possibilidade de fazer uma ruptura completa com o passado e fazer o que nenhum dirigente que o precedeu se atreveu a fazer: trabalhar a favor do empoderamento efetivo daqueles que, há mais de trezentos anos, vivem em um estado permanente de Período Especial.

Falei a V. Ex.ª em meu nome, e só em meu nome. No entanto, sei que as opiniões emitidas nesta carta têm eco naquelas que cada vez mais estão sendo formuladas no país. E eu sei que V. Ex.ª sabe disso.

Com muita deferência e saudações nacionalistas,

Carlos Moore
Etnólogo e Professor de Relações Internacionais


Carlos Moore nasceu e cresceu em Cuba. Doutor em Ciências Humanas e Doutor em Etnologia da Universidade de Paris-7 na França, ele é atualmente Chefe de Pesquisa (Sênior Research Fellow) na Escola para Estudos de Pós Graduação e Pesquisa da University of the West Indies (UWI), Kingston, Jamaica.

Ele foi consultor pessoal para assuntos latino-americanos do Secretário Geral da Organização da Unidade Africana (atualmente União Africana), Dr. Edem Kodjo, de 1982 a 1983, e consultor pessoal do Secretario Geral da Organização da Comunidade do Caribe (CARICOM), Dr. Edwin Carrington, de 1966 a 2000. Foi assistente pessoal do professor Cheikh Anta Diop, diretor do Laboratório de Radiocarbono do Instituto Fundamental da África Negra, de 1975 a 1980, em Dakar, Senegal.

Autor de cinqüenta e cinco artigos publicados sobre questões internacionais, seus livros são: Pichón: Race and Revolution in Castro´s Cuba (Chicago: Lawrence Hill Books, 2008); A África que Incomoda (Belo Horizonte: Nandyala Editora, 2008); Racismo & Sociedade (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007); African Presence in the Americas (Trenton NJ: Africa World Press, 1995), redator principal; Castro, the Blacks, and Africa (Los Angeles, CA: CAAS/UCLA, 1989); This Bitch of a Life (London: Allison e Busby); Cette Putain de Vie (Paris: Karthala, 1982).