29 março, 2008

Desmistificação dos processos, desnaturalização das respostas





Não sei se concordo com essa ilustração.

Confesso que não tenho uma opinião formada sobre isso. Na verdade, opinião eu tenho sim. Só que a minha resposta a essa questão se modifica incessantemente de acordo com a forma em que esse meio de comunicação é usado.

Acredito, fazendo coro a muitas pessoas (e acho que dificilmente alguém discordará) que a televisão é um instrumento de comunicação eficientíssimo que cumpre sua função com maestria. Principalmente quando se preocupa em levar informação para as pessoas.

A televisão enquanto meio de propagação de idéias pode tanto ser benéfica para um grupo social, como pode ser nociva à seus usuários. Isso dependerá em grande parte, e podemos dizer quase que exclusivamente, dos responsáveis que produzem o material que se apresenta na televisão.

Se fossemos analisar a programação atual da televisão aberta brasileira, tratando apenas do conteúdo que é transmitido e não da qualidade do sinal que é enviado, não poderíamos deixar de criticar as inúmeras informações desnecessárias que recheiam os diversos canais gratuitos. Além disso, acompanhado dos programas de televisão de baixa qualidade também estão as propagandas de baixa qualidade (não que exista alguma de boa qualidade), que ajudam a propagar idéias conservadoras e mantenedoras da ordem social vigente.

A grande preocupação em torno dessa questão - onde uma resposta sensata a essa crítica seria a possibilidade de julgamento pessoal que cada cidadão pode fazer sobre o material que desfruta na televisão - é a naturalização de certas relações que são construídas ilusoriamente através dos programas de televisão e de suas propagandas comerciais que influenciam diretamente a forma de reprodução das relações sociais no dia-a-dia cotidiano.

As informações que são transmitidas e dadas ao usuário através da televisão vêm em forma de discurso, direto e reto, ao seu intelecto, forçando o telespectador a problematizar as questões que desfruta na televisão no seu meio social, por si só. Caso a pessoa não tenha tempo de grandes discussões nesse sentido ou até não tendo meios de fazer isso por conta própria (por nunca ter sido incentivado a fazer isso) essa pessoa pode correr o sério risco de tomar as informações vindas da televisão como verdadeiras, como se elas fossem um reflexo do que acontece de verdade, fruto do processo natural da vida.

Desmistificar a informação vinda da televisão é problematizar o conhecimento daqueles que utilizam a televisão como fonte de conhecimento. A desmistificação vai além da crítica militante, aquela que quer revolucionar apenas para mudar os peões de posição. A desmistificação atinge o cerne da questão quando tratamos a respeito de produção de conhecimento e seu processo de transmissão, compartilhamento, troca e qualquer outra forma de dividir idéias pessoais e transformá-las em conhecimentos comuns. A desmistificação significa a desnaturalização dos processos sociais. Significa trazer possibilidades à um mundo de possibilidades. A desnaturalização dos processos cotidianos faz com que questionemos nossas ações involuntárias, fruto de uma ação impositora. Ao desnaturalizar e desmistificar tratamos com olhos menos emotivos aquilo que entramos em contato. Não deixando sermos levados pela emoção ou por falsas impressões.
O primeiro passo no caminho da desmistificação e desnaturalização dos processos sociais que nos cercam é tentar abrir o leque de possibilidades para se encontrar uma resolução. Ou melhor, tentar saber qual é a questão primeira de fato, o ponto originário, o estopim da ação (fugindo da regra de ação e reação), é a melhor forma de encontrar uma resposta que seja satisfatória à proposta de desmistificação e desnaturalização. O grande ponto é justamente não petrificar a resposta. Não podemos acreditar que uma questão já resolvida tem sempre a sua resposta definida. É importante ter em mente a influência fundamental que tem o momento, o instante em que a pergunta aparece, o lapso de tempo em que se encontra o novo mito. O detalhe essencial para encontrarmos a resposta que queremos está no contexto que fez surgir nossa pergunta. Atenção, a resposta não está no momento do surgimento da nossa pergunta, mas esse instante inicial em que a pergunta se forma é indispensável para que compreendamos a totalidade de nossa questão. Isso significa tentar pensar holisticamente. Englobando na desmistificação e desnaturalização dos processos sociais não apenas um pensamento destacado sobre um determinado assunto, mas colocando-o dentro de um contexto e problematizando também o seu passado, e provável futuro.

É evidente que a televisão aberta hoje no Brasil necessita de mudanças profundas (vivemos de mudanças, ou senão seríamos estáticos). A nacionalização da programação é um tema que deveria ser discutido de maneira aprofundada, assim como uma possível regionalização da mesma. Tendo em vista o poder desse meio de comunicação já poderíamos prever as conseqüências de propostas desse tipo. Será que a nacionalização da programação fortificaria o país por tentar proporcionar um coesão nacional? Ou será que a regionalização permitiria um crescimento mais ordenado e distribuído de cada região do país?

Felizmente, essas questões não podem ser respondidas dessa forma (ou alguém acredita que sim??). Acabamos de falar em desmistificação e desnaturalização dos processos sociais e a televisão está dentro disso tudo. Se resolvermos questão como essa optando apenas pela destruição ou pelo louvor (como dois opostos) provavelmente não chegaremos a nenhuma conclusão satisfatória. Não é querendo ficar em cima do muro, mas acredito que o futuro da televisão não pode estar dentro da proposta de destruição em massa do anarquismo primitivista, nem tão pouco dentro da idéia de adorar (como deuses) os eletrodomésticos e a postura que engloba isso tudo vinda do american way of life. Temos que encontrar uma balança nisso tudo. Algo que possibilite a televisão ser usada de uma maneira mais consciente e, assim, mais proveitosa para a sociedade.

Um comentário:

Pardal disse...

Dae, Leo....Como vai esta vida nova?
Bacana esta reflexão sobre a TV, ela é parte de fato do mundo hoje e a reflexão se faz não visando sua supressão mas, pelo contrário, seu uso.
Abraços
Pardal