17 março, 2008

Atitudes e consequencias


O trabalho acima trabalho foi realizado por Marcos Chaves e apresentado na Escola de Cinema Darcy Ribeiro (http://www.escoladarcyribeiro.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=home). "Chaves é um realizador de proposições artísticas que, através da apropriação ou da intervenção, deslocam significados correntes, banais, convencionais, dados como certos, a fim de gerar a aparição de novos sentidos, inesperados, não vistos, não perscrutados. Trata-se do olhar agudo que se descola do habitual, reflete e produz o novo na linguagem, tendo como motor um misto contundente de humor e ironia. A escolha por estes recursos de forma alguma é casual, e sim consistente e coerente, pois eles são portadores de um alto grau de potência desviante: o humor e a ironia são dispositivos que acertam o alvo pelo caminho menos óbvio." Diz Luisa Duarte em artigo para o sitio rizoma.net(Acesse o artigo: http://www.rizoma.net/interna.php?id=168&secao=colagem).

Contrariando Luisa Duarte, na minha opinião a arte de Chaves chega a beirar o moralismo. Com essa frase - Passarinho que come pedra sabe o cu que tem - o autor credita ao propositor da ação o ônus da causa da mesma. Parece que para Chaves está no próprio indivíduo a raiz das conseqüência das ações praticadas pelo ator social. Assim, o autor dessa arte credita ao praticante dos atos as admoestações que o mesmo pode sofrer.

Esse é um ponto de vista, e dentro dele penso eu que essa é uma forma simplista de observar a vida, que vem caracterizada por uma visão individualista e alienante, existente de forma latente no modo de vida capitalista que vivemos hoje. Onde cada um deve assumir suas ações diante do coletivo e arcar com as respostas que esse coletivo dará. Isso faz com que pensemos que a vida é individual, atomizada do resto da sociedade, e que não sofre influências constantes da mesma. Faz também com que achemos normal as diferentes punições para cada tipo de delito, padronizando as transgressões como crimes para a sociedade(pensando nessa enquanto "corpo") e que devem ser seguidos de punições para a preservação do todo. O cerne dessa crueldade de pensamento é acreditar que essas punições tem algum propósito além da restrita proposta de servir como exemplo aos que ainda não transgrediram as leis (ou alguém ainda acha que a prisões modernas [na atualidade] e as punições corporais [na antiguidade - presentes até hoje] servem para alguma reabilitação individual ou tentativa de reinserção na social).

Ao mesmo tempo em que a arte de Chaves porta esse caráter reducionista(como expus brevemente acima), ela também amplia os horizontes do questionamento individual(como explicitou Luisa Duarte). Encontramos assim um jogo de possíveis leituras, que podem nos levar a proposta do individualismo atomizado, como explicitei acima ou a idéia da libertação, do desvio como crescimento e não como redução, como disse a Luisa Duarte.

Minha idéia nessa postagem é apenas levantar a possibilidade de diferentes leituras para o mesmo objeto. Poderíamos entrar em uma grande e profunda discussão sobre a arte e o corpo simbólico que essa levanta. Mas aqui só procurarei levantar a bola, aquecer o debate e incentivar o questionamento sobre o que e como entramos em contato com as coisas que estão ao nosso redor. Para podermos questionar o que representa a mídia de massas e como o indivíduo interage com ela. Será que todos temos as mesmas conclusões sobre o que entramos em contato ?

Um belo exemplo disso é o filme Tropa de Elite. Sendo considerado fenômeno nacional essa película surpreendeu muita gente e principalmente levantou diversas discussões sobre as propostas da arte pela visão do autor. Eu pude acompanhar diversas opiniões sobre o filme e diretamente vi a entrevista que o próprio diretor do filme, José Padilha, concedeu a TV Cultura em 18/10/2007 (Acesse a entrevista: http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/busca.asp?txtBusca=jos%E9+padilha)

Além de acompanhar os debates sobre o filme, também pude assistir ao filme diversas vezes, aprofundando cada vez mais minha opinião sobre esse filme e as conseqüências dele ser produzido, divulgado e de ter se tornado fenômeno nacional.

Como não poderia ser diferente, aproximo o resultado da arte realizada por Marcos Chaves ao resultado do que foi produzido por José Padilha. Criminalização da pobreza, crítica simplista ao tráfico de drogas, violência gratuita, manual prático de tortura barata e exploração comercial do problema social. Isso poderia parecer uma dura crítica ao filme, mas também vejo boas coisas nesse filme produzido por José Padilha. Observo coisas boas porque além da película produzida por esse diretor também vejo nele a história de seu diretor, seus sonhos e sua personalidade (principalmente no programa roda viva). Relembro outro filme do mesmo diretor que não vi inteiro, mas assisti boa parte e ouvi muitos comentários a respeito, Ônibus 174. Com esse levantamento contextual reflito sobre as intenções e idéias desse diretor, chegando a conclusão que o aparecimento dessa película - Tropa de Elite - assim como o Ônibus 174 - assim como despertar o que eu já disse, criminalização da pobreza e coisa e tal, também surge como um grande motivador e proporcionador de debates sobre nossa condição social atual. Fazendo com que isso não seja esquecido ou escondido nas favelas ou atrás de conjuntos habitacionais como cohab´s ou cingapuras.
A Arte, assim como o filme (sendo uma manifestação da própria arte), suscita debates, levanta questões e trás para a cena o que se encontra atrás dos palcos. Nem sempre teremos a visão que o artista fez de sua obra. Mas podemos nos aproximar dessa visão(não que seja necessária essa aproximação) procurando conhecer um pouco mais sobre o seu autor. Assim como quando você assiste a um espetáculo (seja um futebol, uma peça, um evento ou a uma simples aula de colégio ou de universidade), o conhecimento de quem, como e porque são esses atores que apareceram no palco faz toda a diferença na hora de se fazer a leitura do que está sendo mostrado.
Para terminar finalizo com uma frase de Mario Quintana que pode vir a levar as pessoas a refletirem sobre o carater da arte e como deve ser nosso comportamente diante de seu entendimento. Aí vai:
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Não discuto com o destino o que pintar eu assino - Leminski-


14 março, 2008

13 março, 2008



Hoje vejo o quanto é importante ter tempo para amadurecer e para aprender a vivenciar a vida com toda a sua problemática existencial. Se viver é um ato simples, pois precisamos de muito, muito pouco mesmo para nos mantermos vivos (um pouco de alimento, ar para respirar, água limpa para matar a sede, um lugarzinho para morar, um trabalho para nos mantermos ativos e pessoas a quem amar e com quem compartilhar nossas descobertas), ninguém em sã consciência pode afirmar que viver seja facil.

A vida é feita de simplicidade, porém não é feita de facilidades. Mas é somente quando as reflexões começam espontaneamente a surgir e a assumir novos significados, que percebemos o quanto devemos valorizar a vida e suas imensas e inúmeras possibilidades de aprendizado e de transformação.

Cada ciclo é impregnado de reflexão e traz consigo a transformação, a transcendência, a transmutação, o renascimento. Em outras palavras, ao entrar e sair de cada ciclo é morrer e renascer a cada momento, a cada instante, em cada respiração, em cada movimento, em cada sonho e em cada pensamento...

Perceber a passagem de cada ciclo é incentivo para que possamos começar nosso projeto individual de transformação contínua, progressiva e ininterrupta sem receios, sem preguiça e sem rodeios. Não importa sua religião e nem suas crenças pessoais, pois você é livre para escolher, para decidir por si só em quem e no que acreditar ou desacreditar. De fato, isso é o que menos importa aqui e agora. O mais importante é viver e aprender sempre para poder conscientemente mudar e se renovar.

De maneira simbólica, todos nós morremos e renascemos fisiologicamente, emocionalmente, mentalmente e espiritualmente milhares de vezes durante nossa existência. Ao percebermos esse processo, começamos a expandir gradativamente a consciência do significado da vida...

Finalizo a estreia com Fernando Pessoa...

"Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão"

Mo Veiga

12 março, 2008


Aprendendo a aprender

Quando o treinamento se mantém inalterado por longos períodos, as tradições são transmitidas intactas para a próxima geração. Mas quando o que precisa ser aprendido muda com rapidez, especialmente no curso de uma única geração, torna-se muito mais difícil saber o que ensinar e como ensinar. Então os estudantes se queixam da relevância; diminui o respeito pelos mais velhos. Os professores se desesperam ao constatar como os padrões educacionais se deterioram e como os estudantes se tornaram apáticos. Num mundo em transição, tanto os estudantes como os professores precisam ensinar a si mesmos uma habilidade essencial - precisam aprender a aprender.

Carl Sagan

(A)benç(ã)oado

Nossa vida se desenrola em processos. São momentos que vão e vem e que, de uma forma ou de outra, se apresentam diante de nossos olhos como ciclos. Algo que se inicia em um determinado momento e se encerra logo depois. Esses ciclos podem ter longa duração ou serem curtos, quase dificeis de serem chamados ciclos. O fato é que observando de longe e dividindo a vida em esferas de atuação podemos notar que vivemos vários ciclos ao mesmo tempo.
Não necessariamente vivemos momentos semelhantes nessas diferentes esferas. Para ilustrar isso podemos pegar o ditado: Sorte no jogo, azar no amor.
E frase não nos coloca na situação de azar no amor se tivermos sorte no jogo, mas vale de consolo para aqueles que não conseguem congruencia entre essas esferas de atuação da vida cotidiana.
A forma cíclica da vida faz com que não entremos em desespero perante as fases ruins de nossos ciclos. Sabemos que logo se iniciarão novos momentos e dentro deles depositamos a esperança da mudança, de transformarmos o panorama do jogo ao contrário, fazendo ele atuar a nosso favor.
Outra forma de virar o jogo é a aceitação. A aceitação faz parte do processo de reflexão a que estamos sujeitos. Através dela podemos reconsiderar e mudar nossa relação com os elementos que nos causam tormento. Aceitamos o dado e começamos a estabelecer outras relações com ele, deixando de buscar o consolo, que é fruto de uma decepção, e indo atrás de novas descobertas ou novos caminhos no caminho que já se conhece.

Para alcançarmos o caminho da reflexão temos que ser incentivados. Seja por nós mesmos ou por elementos externos que despertam nossa atenção.
O bom mesmo é quando, acostumados com a inquietação do novo, não precisemos de mais incentivo nenhum. Partimos para cada experiência com o ofício de buscar o novo sempre.
Não ficando satisfeito com a chegada no final da corrida, mas tentando analisar cada parte dessa corrida com a consciência de que em todos os momentos que percoremos esse trajeto a nossa atitude poderia ter modificado o resultado final da ação.
Falamos de atitudes e de momentos.

Cada toque, cada olhar e cada sinal é extremamente importante e deve ser considerado na avaliação para a compreensão de nossas trajetórias. É lógico também que além das micro relações não devemos desconsiderar as macro relações, aquelas que fazem parte da estrutura do sistema em que vivemos e que determinam em grande parte cada toque, cada olhar e cada sinal que interagirá conosco.

Fazemos parte de uma infinidades de ciclos. Não somente os biológicos e sociais, que podem ser sentidos individualmente, mas algo mais complexo que alia esses dois e se transforma em um infinidade de possibilidades individuais, coletivas e estruturais.

Existe algo para além da matéria, algo que não podemos ver e nem sentir enquanto corpo físico. Algo que estrapola os limites humanos de compreensão (até é por isso que os sociólogos não conseguem dar as respostas que esse mundo quer - já diria Weber) E enquanto não podemos dizer nada sobre isso. Vamos vivendo, mentalizando boas energias e desejando a todos um caminho repleto de reflexões e questionamentos, para que não nos acostumemos com o que já está feito, nos tornando eternos aprendizes, para sempre insatisfeitos, eternos conhecedores.

E para inicio da reflexão coloco uma passagem que meu amigo - Felipe Trovão - me endereçou outro dia. Acho que é um bom "abre alas" para aqueles que começarão a trilhar novos caminhos e que precisam da tranquilidade necessária para observar onde vão pisar e em que lugar construirão seu castelo (e que esse castelo seja móvel - a rigidez da edificação pode levar o cidadão à estagnação). A passagem chama-se Benção Irlandesa.

Benção Irlandesa

Que o caminho seja brando a teus pés,

O vento sopre leve em teus ombros.

Que o sol brilhe cálido sobre tua face,

As chuvas caiam serenas em teus campos.

E até que eu de novo te veja,

que os Deuses te guardem nas palmas de Suas mãos

Que a estrada abra à sua frente,

que o vento sopre levemente em suas costas,

que o sol brilhe morno e suave em sua face,

que a chuva caia de mansinho em seus campos.

E até que nos encontremos de novo...

Que os Deuses guardem você na palma das Suas mãos.

Que as gotas da chuva molhem suavemente o seu rosto,

que o vento suave refresque seu espírito,

que o sol ilumine seu coração,

que as tarefas do dia não sejam um peso nos seus ombros,

e que Deus envolva você no seu manto de amor.

07 março, 2008


As idéias que surgem numa comunidade tomam força e energia. Não somos só nós que as possuímos, elas também nos possuem.
Edgar Morin

05 março, 2008

Aceitação



Não quero ter a terrível limitação de quem vive só o que é possível fazer sentido.


Clarice Lispector

04 março, 2008


CANÇÃO PARA UMA DESPEDIDA.
(Murilo Benzatti Moro)

Eu antecipo erros,
cometo deslizes,
enfio os pés pelas mãos por medo,
mudo minhas próprias diretrizes.

Gosto e desgosto do mesmo jeito,
deixo fluir enquanto aprecio,
paro por um segundo, me deito,
ai me vem aquela sensação de vazio.

Eu sinto muito, mas eu já não te amo mais
e com você eu digo que estarei andando pra trás.
Entenda, meu bem, que as coisas vem e vão.
Erga a cabeça como eu fiz, não tive medo do não.

Que conselhos amor? Que conselhos posso dar-te?
Será que é cedo pra dizer que é tarde?
Será que valemos todo esse alarde
ou somos apenas mais dois incomuns?

Dizer que o tempo cura tudo eu não digo,
é besteira que a gente diz no ombro consolado.
O tempo é um telhado que protege,
mas que sempre deixa entrar um raio ensolarado.

Que esse raio incendeie a chama que apago agora
e que tuas promessas de morte sejam apenas cantos.
Quem sabe o mundo é bem melhor lá fora
do que aqui junto dos meus e dos teus prantos.

Chorei demais amor, confesso
e digo que ainda há mais o que derramar,
mas prefiro molhar meu chão lá fora e me despeço
com um pedaço do que significou te amar.

Sei que a porta parece trancada por fora
e que agora talvez não seja a hora
de você partir com as minhas lágrimas,
mas a partida é pouco dolorosa quando se faz menos trágica.

Que fique a memória,
que fique o desejo,
que fiquem os beijos
e que o tempo conte a nossa história.

Por onde ela anda ?


Aonde ela vai ?

GIBRAN, CALVINO, HUCK e FERRÉZ


Outro dia eu estava lendo O PROFETA de GIBRAN KHALIL GIBRAN e entre todas as passagens (mensagens) que o livro nos permite usufruir, algumas me chamaram a atenção. O que faz um livro de 1923 ser tão atual e perturbador é o fato do autor estar preocupado em problematizar a vida e a condição em que vivemos, sendo essa condição a de estarmos juntos, compatilhando a mesma casa comum, o planeta terra, e com responsabilidades coletivas, como uma grande família, levantando questões que estrapolam o indivíduo, o coletivo e o estrutural. Chegamos com GIBRAN KHALIL GIBRAN a um ponto em que essas três frentes, a consciência individual, o todo coletivo e o extrato estrutural caminham juntas, indissociavelmente, com uma parte dependendo intimamente das outras duas.

Assim, o que se constroi em O PROFETA é uma corrente. Um elo entre os três mundos onde as influências e consequências são mutuas e inseparáveis. O leitor parte nesse livro para uma aprofundada (isso vai depender de sua vontade pessoal) introspecção filosófica, psicológica e social. Levantando questionamentos que extrapolam os próprios limites objetivos do livro e que podem resultar em mudanças práticas em sua vida.

Neste poste procurei trazer uma passagem de O PROFETA que me chamou a atenção e que, penso eu, tem proximidade intima com um texto que gosto muito do ITALO CALVINO, chamado CIDADES INVISÍVEIS. Além disso, ainda poderíamos linkar essas duas passagens que serão citadas abaixo com o episódio envolvendo o apresentador de televisão Lucino Huck e o escritor de literatura periférica Ferréz, que debateram publicamente sobre o problema da violência e da desigualdade social no Brasil.



O PROFETA – GIBRAN KHALIN GIBRAN

E ouvi isto, embora a palavra deva pesar rudemente sobre vossos corações:
O assassino é censurável por seu próprio assassínio.
E o roubado não é isento de culpa por ter sido roubado.
E o justo não é inocente das ações do mau.
Sim, o culpado é, muitas vezes, a vítima do ofendido.
E mais comumente ainda, o condenado carrega o fardo para o inocente e o irreprochável.
Vós não podeis separar o justo do injusto e o bom do malvado;
Porque ambos caminham juntos diante da face do sol, exatamente com os fios branco e negro são tecidos juntos.
E quando o fio negro rompe-se, o tecelão verifica todo o tecido e examina também o tear.



ITALO CALVINO – CIDADES INVISÍVEIS

Em vez de falar de Berenice, cidade injusta, que coroa com tríglifos ábacos métopes as engrenagens de suas máquinas de triturar carne, eu deveria falar de Berenice oculta, a cidade dos justos, atarefados com materiais de fortuna à sombra de almoxarifados e vãos de escada, atando uma rede de fios e tubos e roldanas e bielas e contrapesos, que se infiltra como uma trepadeira entre as grandes rodas dentadas; em vez de representar as piscinas perfumadas das termas em cujas bordas se estendem os injustos de Berenice enquanto tecem as suas intrigas com redonda eloqüência e observam com olhar dominador as carnes redondas das odaliscas que se banham, deveria falar de como os justos, sempre prudentes em evitar as declarações dos mentirosos e as armadilhas dos guardas do tirano, reconhecem-se pelo modo de falar, especialmente pela pronúncia das vírgulas e dos parênteses; dos costumes que parecem severos e inocentes eludindo os estados de ânimo complicados e sombrios; da cozinha sóbria mas saborosa que reevoca uma antiga idade de ouro: sopa de arroz e aipo, favas cozidas, flores de abobrinhas fritas.

A partir destes dados é possível inferir uma imagem da futura Berenice, que estará mais próxima do conhecimento da verdade do que qualquer notícia sobre o atual estado da cidade. Contanto que se tenha em mente o que estou para dizer: na origem da cidade dos justos está oculta, por sua vez, uma semente maligna; a certeza e o orgulho de serem justos – e de sê-lo mais do que tantos outros que dizem ser mais justos do que os justos -, fermentando rancores, rivalidades, teimosias, e o natural desejo de represália contra os injustos se contamina pelo anseio de estar em seu lugar e fazer o mesmo que eles. Uma outra cidade injusta, portanto, apesar de diferente da anterior, está cavando o seu espaço dentro do duplo invólucro das Berenices justa e injusta.

Dito isto, se não desejo que seu olhar colha uma imagem deformada, devo atrair a sua atenção para a qualidade intrínseca dessa cidade injusta quer germina em segredo na secreta cidade justa: trata-se do possível despertar – como um violento abrir de janelas – de um amor latente pela justiça, ainda não submetido a regras, capaz de compor uma cidade ainda mais justa do que era antes de se tornar recipiente de injustiça. Mas, se se investiga ulteriormente no interior deste novo germe de justiça, descobre-se uma manchinha que se dilata na forma de crescente inclinação a impor o justo por meio do injusto, e talvez seja o germe de uma imensa metrópole...

Pelo meu discurso, pode-se tirar a conclusão de que a verdadeira Berenice é uma sucessão no tempo de cidades diferentes, alternadamente justas e injustas. Mas o que eu queria observar é outra coisa: que todas as futuras Berenices já estão presentes neste instante, contidas uma dentro da outra, apertadas espremidas inseparáveis.



PENSAMENTOS QUASE PÓSTUMOS – LUCIANO HUCK

Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa
LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do “Jornal Nacional” de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.
não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.
Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.
Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.
Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.
Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.
Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.
Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.
Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase “infantis” para uma sociedade moderna e justa.
De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.
Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.
Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de “extraterrestres” fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?
Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal.
Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.
Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: “Cansei”. O Lobão canta: “Peidei”.
Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.Isso não está certo.



PENSAMENTOS DE UMA CORRERIA - FERRÉZ

"Ele não terá homenagem póstuma se falhar. Pensa: "Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?"ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto. Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos. Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada. O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga. Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita. Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal. Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito. Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber. Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado? Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém. Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto. Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora. Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso. Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo. A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.

29 fevereiro, 2008

Pelo conceito Perfeito

Para o universo paradigmático, estanque, limitado e definido da realidade acadêmica vai aí um poema de JOÃO PAULO CUENCA, presente no livro O DIA MASTROIANNI.
Nessa obra o autor apresenta um relato sarcástico de uma geração que caminha do nada para lugar nenhum. O protagonista se entrega ao nada que é fruir o dia mastroianni. Despreza todo e qualquer compromisso com a realidade. Pouco se importa, por exemplo, com o registro disse que chamam realidade.
"Não imagino há quanto tempo não leio o jornal. Sei que, na última vez que o fiz, o pano caiu ante meus olhos: descobri que nada acontece. É o maior de todos os segredos. Depois, nunca consegui entender por que eles lêem o diário, discutem sobre as últimas (des)notícias, o que chamam de "realidade", de "mundo". Isso não me faz sentido algum."
Pedro Cassavas, o protagonista, e o personagem amigo Tomás Anselmo são jovens. Se recusam a trabalhar. Preferem ser trabalhados. Se recusam a trabalhar pois se acreditam bons demais, tão excelentes que poderiam fazer tudo o que desejassem, mas nada ambicionam. Desconhecem o prazer de um plano realizado. Conversam apesar de professar que todas as conversas são inúteis. E bebem. Tudo o que for alcoólico. Querem drinques gratuitos e prazeres interditos. Para eles o hoje é uma ilusão. A dupla se recusa para agir porque "nada nunca acontece ou acontecerá, independente do que façamos no mundo". Eles tem saudades do que nunca aconteceu.


Nas páginas do livro ...

"Verônica e alguns frequentadores do Monga Bar e do Café almofada e inúmeros outros jovesn curitibanos declamam, em alta voz, de repente num porão qualquer, uma canção que é hino e profissão de fé dos eternos adulteens:


Eu quero o conceito perfeito,
o mundo cor-de-rosa num sonho infantil,
a pura ignorância pequeno burguesa,
eu quero o olhar perdido de um cão
Eu quero o slogan maior,
farta mesa da família nórdica,
breakfast, fastfood, junkfood,
eu quero uma vida feliz e rasteira
Eu quero o timming perfeito,
a fórmula do seu sucesso,
jogo de cintura, espiritualidade
eu quero ser um alfa-beta
Eu quero o clímax perfeito,
o travelling final majestoso,
o diálogo perspicaz, elegante,
eu quero o charme ambíguo do galã
Eu quero o sexo perfeito,
sem lençóis sujos ou movimentos bruscos,
inodoro, depilado, com as luzes acesas,
eu quero amor enlatado
Eu quero o conceito perfeito..."

28 fevereiro, 2008

Pessoa (quem é essa ?)

Vão aí alguns pensamentos de Fernando Pessoa, nascido em Lisboa, em 13/06/1888 e falecido na mesma cidade em 30/11/1935. Escritor de língua portuguesa que tinha a sensiblidade necessária para tocar os acontecimentos mais cotidianos de nossas vidas. Com leveza e perspicácia Pessoa diz sobre o que éramos , o que somos e o que estamos nos tornando ...


Tudo em nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós..

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.

Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.

Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária.

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu....Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado. Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais. Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal". Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..E lembra-te:Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão

Um dia a maioria de nós irá se separar!!!Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos. Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim do companheirismo vivido. Bem eu sempre pensei que as amizades continuassem para sempre!!!Hoje não tenho mais tanta certeza disso :(Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar quem sabe nos e-mails trocados. Podemos nos telefonar conversar algumas bobagens..Aí os dias vão passar, meses..anos..até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão? Quem são aquelas pessoas? Diremos...Que eram nossos amigos!E isso vai doer tanto! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida. E a saudade vai apertar.Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixemos que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades.... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa

Vale a pena conferir mais ...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_pessoa
http://www.pensador.info/autor/Fernando_Pessoa/
http://www.pessoa.art.br/
http://www.germinaliteratura.com.br/fp.htm
http://www.revista.agulha.nom.br/fpesso.html
http://fredb.sites.uol.com.br/pessoa.html
http://www.revista.agulha.nom.br/fpesso.html

Ops ... será que sabemos quem é o paciente ?


Deixe as pessoas pensarem que governam e elas serão governadas.
William Penn

27 fevereiro, 2008

Questão de ponto de vista




Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.


Pablo Picasso

O dilema da transgressão, o dilema do novo (conhecimento)

Salve pessoal.
Esse poste é um fragmento da obra de GRACILIANO RAMOS, um capítulo chamado INFERNO e que faz parte do livro INFÂNCIA. Esse livro conta o processo da, com já diz o título do livro, infância de um rapaz que vive com seus pais e suas duas irmãs no nordeste brasileiro. O fragmento escolhido representa uma das vezes em que o personagem principal, inserido em um momento de descobertas sobre o mundo, questiona a realidade imposta a ele, confrontando sua mãe sobre as verdades que lhes são dadas no contexto em que vivem.

Considero oportuno esse fragmento pois levanto a bandeira de necessariamente nos portarmos como leigos diante dos questionamentos sobre o mundo. Temos que nos preparar para o acaso, o inesperado e a surpresa. Deixando em aberto os caminhos que nossas vidas podem tomar. Quanto mais certezas tivermos sobre o que nos cerca, menores são as possibilidades de nós nos permitimos a novas experiências e menor também é a gama de caminhos que teremos oportunidade de seguir, fazendo com que nossas vidas se tornem algo pré-determinado e certo, estanque e natural, algo monotonamente estável.

A sede de conhecimentos é incompatível com a estabilidade. Ela é sedenta pelo novo e se apaixona a cada dia por aquilo que desconhece, propiciando um ciclo de encantamento que se encerra no dia em que esse conhecimento é revelado. A luz ofusca o conhecedor e isso faz com que esse tente se afastar da mesma. Quando mais próximo da luz o conhecedor se encontrar, mais problemas de visão ele terá e mais longe da condição de conhecedor ele se encontrará.

Infelizmente, nesse mundo em que estamos, a busca pela luz parece ser o grande ponto que todos querem alcançar. A estabilidade, inimiga natural do conhecimento, é o grande sonho de muitas pessoas. Talvez seja por isso mesmo que o mundo esteja em tamanho descompasso, achando que ter é melhor que ser ou que vomitar formulas prontas é melhor que admitir novos paradigmas, pensando em novas soluções.
Se me perguntarem sobre a cura dessa doença não darei soluções. Só alerto sobre a importância de recorrer ao nosso passado onde, provavelmente não encontremos as soluções para os nossos problemas mas, com certeza poderemos observar onde estão nossos erros, repara-los e abrir espaço...

GRACILIANO RAMOS – INFÂNCIA

INFERNO


As vezes minha mãe perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moço que Lea, habituei-me, nessas tréguas curtas e valiosas, a julgá-la criança, uma companheira de gênio variável, que ra necessário tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam-se de chofre – e causavam-me desgosto.

Um dia, em maré de conversa, na prensa de farinha do copiar, minha mãe tentava compor frases no vocabulário obscuro dos folhetos. Eu me deixava embalar pela música. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.

Súbito ouvi palavra doméstica e veio-me a idéia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha mãe estranhou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde as pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões. E num lugar existem casas, árvores, açudes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrição. Minha mãe condenou a exigência e quis permanecer nas generalidades. Não me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a ciência dela. Porque não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que as de São João e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.

Fogueira de São João eu conhecia. Tinha-se feito uma diante de casa. Eu andara à tardinha em redor do monte de lenha que o moleque José arrumava. Admirando os aprestos, espantava-me de haver nascido ali de supetão um mamoeiro carregado de frutos verdes. À noite deitara-se na pilha uma garrafa de querosene, viera um tição. E eu ficara na calçada até dez horas, olhando as labaredas, que meu pai alimentava com aduelas e sarrafos. A gente da vila mexia-se, ria e cantava, iluminada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do mamoeiro se torravam, pulverizavam. E na rua, desentulhada, apareciam grandes manchas negras.

Também conhecia o breu derretido. No armazém, barricas finas continham sustância escura que, pisada, tomava a cor das moedas de vintém livres do azinhavre, raspadas no tijolo, molhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedaço dessa maravilha, com um peso de meio quilo, junto à balança romana da loja. Tinha posto a massa dourada num cartucho de jornal, riscado um fósforo em cima e esperado o fenômeno. Uma lágrima correra no papel, alcançara-me o dedo anular, descera da unha à primeira falange. Largando a experiências, eu me desesperara, abafando os gritos, fora meter a mão num pote de água. Tinha sofrido em silêncio, receando que percebessem a traquinada e a queimadura.

Quando minha mãe falou em breu derretido, examinei minha cicatriz do dedo e balancei a cabeça, em dúvida. Se o pequeno torrão, esmagado com o peso de meio quilo, originara aquele desastre, como admitir que pessoas resistissem muitos anos a barricas cheias derramadas em tachas fundas, sobre a fogueira de São João?

- A senhora esteve lá ?

Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia.

- Eu queria saber se a senhora tinha estado lá.

Não tinha estado, mas as coisas se passavam daquela forma e não podiam passar-se de forma diversa. Os padres ensinavam que era assim.

- Os padres estiveram lá ?

A pergunta não significava desconfiança na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desejava que me explicassem a região de hábitos curiosos. Não me satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vítima e demônios. Necessitava pormenores.

Minha mãe estragara a narração com uma incongruência. Assegurava que os diabos se davam bem na chama e na brasa. Desconhecia, porém, a resistência das almas suplicadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio mais ou menos longo, se transformariam em diabos. Indispensável esclarecer esse ponto. Não busquei razões, bastavam-me afirmações. Achava-me disposto a crer, aceitaria os casos extraordinários sem esforço, contato que não houvesse neles muita incompatibilidade. Reclamava uma testemunha, alguém que tivesse visto diabos chifrudos, almas nadando em breu. Ainda não me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas.

- Os padres estiveram lá ? tornei a perguntar

Minha mãe irritou-se, achou-me leviano e estúpido. Não tinha estado, claro que não tinham estado, mas eram pessoas instruídas, aprendiam tudo no seminário, nos livros.

Senti forte decepção: as chamas eternas e as caldeiras medonhas esfriaram. Começava a julgar a história razoável, adivinhava por que motivo Padre João Inácio, poderoso e meio cego, furava os braços da gente, na vacina. Com certeza o Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele mau costume. A resposta de minha mãe desiludiu-me, embaralhou-me as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:

- Não há nada disso.

Minha mãe esteve algum tempo analisando-me, de boca aberta, assombrada. E eu, indignação por se haverem dissipado as tachas do breu, os demônios, o prestígio de Padre João Ináciom repeti:

- Não há não. É conversa.
Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos.



25 fevereiro, 2008

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflecte.

Aristóteles


Conhecimentos

O texto a seguir foi escrito por Lima Barreto e está presente em seu livro FEIRAS E MAFUÁS, datado de 13/03/1930. Nesse texto, de título A UNIVERSIDADE, o autor faz uma crítica a estrutura da instituição de ensino superior, vulgo ensino de 3 º grau, ou ainda, a universidade.

Apesar de concordar com boa parte das palavras de Lima Barreto, não posso deixar de expressar minha particular e humilde opinião em que, enfatizo a importância de consideração de todo e qualquer conhecimento, seja ela vindo de instituições de ensino hierarquicamente estruturadas ou transmitido oralmente através de gerações. Digo isso por conta das opiniões que já ouvi e não concordei, quando observei na fala de amigos, colegas e desconhecidos, intenções de desprezo que se prendiam a pontos específicos de certas estruturas e que acabavam por desconsiderar conhecimentos vastos que não diziam respeito a realidade do falante.

Urbanóide que sou, certa vez me fui ao litoral tirar férias. Estando lá encontrei um nativo que gentilmente puxou uma conversa comigo ao mesmo tempo em que admirávamos a beleza estonteante da linha do horizonte no alto mar. Entre palavras soltas e histórias do passado esse velho senhor me contou uma ficção em que um homem dotado de alta capacidade intelectual pediu a um pescador uma carona para o outro lado da ilha. O pescador, seguindo o seu protocolo de trabalho diário, levou o intelectual de graça pois o caminho desejado pelo mesmo era igual ao que o pescador fazia todos os dias. No meio do caminho o intelectual, que levava muitos livros consigo, perguntou ao pescador:
- o senhor sabe ler ?
- Não sei. respondeu o pescador.
-Como não ?? respondeu o intelectual. Ler é uma grande dádiva e, desculpe-me o senhor, mas não sabendo ler o senhor perdeu, no mínimo e chutando baixo, metade de sua vida.

O pescador que já era ciente dessa deficiência, consentiu com o intelectual mas não poder fazer nada e não viu nenhuma vantagem em aprender a ler em tal estágio avançado de sua vida.
Algum tempo depois o intelectual reapareceu e pediu ao pescador que o ajudasse na mesma tarefa. Só que desta vez para voltar de onde eles haviam partido certa vez.
Conversa ia e conversa voltava entre o intelectual e o pescador até que no meio do caminho o tempo fechou e o mar, até então calmo, tornou-se um liquidificador de barcos, forçando a queda do pescador e do intelectual na água que antes de cair ainda puder trocar algumas palavras:
- O senhor sabe nadar ? perguntou o pescador.
- Não sei, respondeu o intelectual.
- Então o senhor perdeu toda a sua vida.

Eu olhei para o meu lado reparando nas vestes de pescador que esse senhor portava. Na mesma hora ele me disse:
- Nadar é coisa mais importante do mundo.
Eu me virei para frente novamente e fitei o encantado horizonte. Não consegui me concentrar em sua beleza, estava refletindo nas palavras do velho senhor. Que naquela hora disse algo que realmente me fez sentir a vida. Entendendo que saber nadar estando de frente para tanta água era o que eu mais deveria saber no momento...
Defendendo todo e qualquer conhecimento, desde que contextualizado em sua possibilidade real de aplicação, deixo minhas palavras e apresento, Lima Barreto.


A Universidade

Voltam os jornais a falar que é tenção do atual governo criar nesta cidade uma universidade. Não se sabe bem por quê e a que ordem de necessidade vem atender semelhante criação. Não é novo o propósito e de quando em quando, ele surge nas folhas, sem que nada justifique e sem que venha remediar o mal profundo do nosso chamado ensino superior.

Recordação da idade média, a universidade só pode ser compreendida naquele tempo de reduzida atividade técnica e científica, a ponto de, nos cursos de suas vetustas instituições de ensino, entrar no estudo de música e creio mesmo a simples aritmética.

Não é possível, hoje, aqui no Brasil, que essa tradição universitária chegou tão diluída, criar semelhante coisa que não obedece ao espírito do nosso tempo, que quer nas profissões técnicas cada vez mais especialização.

O intuito dos propugnadores dessa criação é dotarnos com um aparelho decorativo, suntuoso, naturalmente destinado a fornecer ao grande mundo festividades brilhantes de colação de grau e sessões solenes.

Nada mais parece que seja o intuito da ereção da nossa universidade.
De todos os graus de nosso ensino, o pior é o superior; e toda a reforma radical que se quisesse fazer nele, devia começar por suprimi-lo completamente.

O ensino primário tem inúmeros defeitos, o secundário maiores, mas o superior, sendo o menos útil e o mais aparatoso, tem o defeito essencial de criar ignorantes com privilégios marcados em lei, o que não acontece com os dois outros.

Esses privilégios e a diminuição da livre concorrência que eles originam, fazem que as escolas superiores fiquem cheias de uma porção de rapazes, alguns às vezes mesmo inteligentes, que, não tendo nenhuma vocação para as profissões em que simulam estar, só têm em vista fazer exames, passar nos anos, obter diplomas, seja como for, a fim de conseguirem boas colocações no mandarinato nacional e ficarem cercados do ingênuo respeito com que o povo tolo cerca o doutor.
Outros que só se destinam a ter título de engenheiro que efetivamente quer ser engenheiro e assim por diante, de forma que o sujeito se dedicasse de fato aos estudos respectivos, não se consegue com um simples rótulo de universidade ou outro qualquer.

Os estudos propriamente de medicina, de engenharia, de advocacia, etc. deviam ficar separados completamente das doutrinas gerais, ciências constituídas ou não, indispensáveis para a educação espiritual de quem quer ter uma opinião e exprimi-la sobre o mundo e sobre o homem.
A esse ensino, o estado devia subvencionar direta ou indiretamente; mas o outro, o técnico, o de profissão especial, cada um fizesse por si, exigindo o Estado para os seus funcionários técnicos que eles tivessem um estágio de aprendizagem nas suas oficinas, estradas, hospitais, etc...
Sem privilégios de espécie alguma, tendo cada um de mostrar as suas aptidões e preparo na livre concorrência com os rivais, o nível do saber e da eficiência dos nossos técnicos (palavra da moda) havia de subir muito.

A nossa supertição doutoral admite abusões que, bem examinadas, são de fazer rir.
Por exemplo, temos todos nós como coisa muito lógica que o diretor do Lloyd deve ser engenheiro civil. Por quê ? Dos telégrafos, dos correios – por quê também ?
Aos poucos, na Central do Brasil, os engenheiros foram avassalando os grandes empregos da “gema”.
Por quê ?

Um estudo nesse sentido exigiria um trabalho minucioso de exames de textos de leis e regulamentos que está acima da minha paciência; mas era bom que alguém tentasse fazê-lo, para mostrar que a doutomania não foi criada pelo povo, nem pela avalanche de estudantes que enche nossas escolas superiores; mas pelos dirigentes , às vezes secundários, que a fim de satisfazer preconceitos e imposições de amizade, fora, pouco a pouco ampliando os direitos exclusivos do doutor.

Ainda mais. Um dos males, decorrentes dessa supertição doutoral, está na ruindade e na estagnação mental do nosso professorado superior e secundário.
Já não bastava a indústria do ensino para fazê-lo mandrião e rotineiro, veio ainda por cima a época dos negócios e das concessões.

Explico-me:
Um moço que, aos trinta anos, se faz substituto de uma nova faculdade ou escola superior, não quer ficar adstrito às funções de seu ensino. Pára no que aprendeu, não segue o desenvolvimento da matéria que professa. Trata de arranjar outros empregos, quando fica nisso, ou, se não – o que é pior – mete-se no mundo estridente das especulações monetárias e industriais da finança internacional.

Ninguém quer ser professor como são os da Europa, de vida modesta, escarafunchando os seus estudos, seguindo o dos outros e com eles comunicando ou discutindo. Não; o professor brasileiro quer ser um homem de luxo e representação, para isso, isto é, para ter meios de custear isso, deixa às urtigas os seus estudos especiais e empresta o seu privilégio aos homens de muitas ocupações bem ou mal-intencionados.

Para que exemplificar ? Tudo isso é muito sabido e basta que se fale em geral, para que a indicação de um mal geral não venha a aparecer como despeito e ataque pessoal.
A universidade, coisa sobremodo obsoleta, não vem curar o mal do nosso ensino que viu passar todo o século de grandes descobertas e especulações mentais de toda a sorte, sem trazer, por qualquer dos que o versavam, um quinhão por mínimo que fosse.
O caminho é outro; é a emulação.

23 fevereiro, 2008

abrindo alas

Dale galera.
Inicio esse blog com uma postagem de boas vindas à todos os bons fluidos de um mundo diferente. Um mundo que se preocupa com o próximo, que tem ciência de sua influência e assume a responsabilidade de suas ações.
Um mundo que construímos estando juntos, vivendo em comunidades, sejam elas formadas por associações individuais ou por aglomerações em massa. Um mundo estruturado que se reflete em uma mixórdia de realidades coletivas e em particularidades atomizadas. Um mundo de verdades conflitantes porém um mundo grande, amplo e agregador de certezas e incertezas complexas e flutuantes, que ora se excluem e ora se completam. Montando um quebra-cabeça dependente que faz o sabor amargo buscar incessantemente o doce, tentando encontrar nessa busca a razão e o significado de sua existência.
Temos que saber que ao mesmo tempo em que garimpamos, tendo como objetivo o ouro de nosso redenção, estamos transformando a realidade que está ao nosso redor, que não nos diz respeito até o momento em que entramos em contato com ela e a revolucionamos com nossa busca. Por isso devemos lembrar que somos altamente responsáveis por aquilo que cativamos e com isso é como se os nossos atos grudassem a nós, como a luz ao fósforo: fazendo nosso esplendor, é verdade, mas tão somente à custa de nosso desgaste.
Começamos agora. Terminaremos jamais. Mesmo com o fim, ficam os resquícios...